Diário de inverno

Leitura pesada, especialmente para quem é da geração de Paul Auster. Ele nos oferece as suas lembranças em um diário em que confessa seus temores diante da aproximação da velhice e da morte: “adentrei o inverno da minha vida. Me aproximo do final“.
“É um livro sobre o meu corpo, sobre os prazeres e as dores que alguém sente vivendo dentro dele. Se falo de minha mulher, é porque meu corpo dorme junto ao seu todas as noites. Se me expresso sobre minha mãe, é porque foi ela quem deu à luz ao meu corpo. Se descrevo as casas onde vivi, é só porque abrigaram meu corpo“.
Dentre os relatos, Auster recorda os ataques de pânico que sofreu durante a vida. Foi graças ao primeiro deles (há dez anos, na cozinha de sua casa), que pensou em escrever memórias. Percebera que essa experiência violenta e aterradora que chega “sem prévio aviso” fazia parte de uma história maior que lhe interessaria investigar. Mas jamais tentou encontrar na escrita das suas memórias uma espécie de “terapia”:
“Escrever nunca me serviu para resolver nada. A escrita não é nenhuma terapia. Se muito, é uma compulsão ou uma doença. Nunca entendi por que alguém gostaria de se dedicar a isso, a não ser que tenha a sensação de que lhe é algo absolutamente necessário. A única coisa que posso dizer sobre o meu trabalho é que, durante as últimas três décadas e meia, dei tudo o que tinha. Tenho feito o melhor que podia, a cada dia de minha vida. Mesmo quando tudo o que escrevo durante um dia termine na lata de lixo, posso me levantar do escritório e dizer a mim mesmo: ‘Pelo menos, você não se enganou’. Mas se trata de uma profissão estranha. Sentar-se num quarto e passar todo o dia sozinho não é algo que a maioria das pessoas quer fazer com sua vida. As pessoas querem estar lá fora, com os outros, fazendo coisas juntas.“
Auster expõe sua intimidade com coragem e passa a impressão de que está permanente-mente torturado pelos erros de seu passado.
“Me atormentam os momentos em que não fui capaz de agir conforme esperava de mim mesmo. Esses erros de comportamento e de julgamento seguem me atormentando. Me fazem pensar que não sou o grande homem que sempre acreditei ser. (…) Não queremos todos sermos heróis em nossas vidas? (…). Sempre tentei viver minha vida de modo que pudesse merecer meu próprio respeito. E, em certas ocasiões, falhei. Não estou dizendo que se possa ir por aí, sem cometer um erro, sem fracassar nenhuma vez. Mas esses são meus erros e seguem me torturando.”

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