Circo de horrores

Deixemos o linguajar chulo do presidente Jair Bolsonaro e seus ministros amestrados, com xingamentos e palavrões que fariam corar qualquer leão de chácara de bordel do baixo lenocínio, e nos concentremos nas revelações que o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril nos oferece. É muito preocupante. Tem pólvora suficiente para deixar de cabelo em pé qualquer cidadão com vocação democrática.

O ministro da Educação Abraham Weintraub afirmou que gostaria de mandar “vagabundos para cadeia, a começar pelo STF”. Ricardo Salles, do Meio-Ambiente, sugeriu aproveitar o “momento de tranquilidade” em que a imprensa está voltada à Covid-19 para “ir passando a boiada”, mudando normas para satisfazer interesses anti-ambientais do agronegócio.
Paulo Guedes, que gostaria de vender a “porra” do Banco do Brasil logo, só se calou quando Bolsonaro disse que só vai falar disso em 2023, depois das eleições. E Damares Silva ameaça até prender governadores e prefeitos, mentindo sobre a extensão do decreto pró-isolamento do governador do Piauí, Wellington Dias.

Um circo de horrores. Mas nada é tão terrível quanto a exposição do que pensam esses senhores sobre a liberdade. No dicionário do presidente, liberdade tem um significado maligno. Está associada à devoção e só pode ser desfrutada por quem segue suas ideias. Bolsonaro a entende como combate renhido à civilização, à sociedade organizada, às leis de convívio, contra as quais é necessário guerrear com todas as armas.

A reunião não deixou dúvidas quanto ao descaso com a população diante da pandemia. Nenhuma providência efetiva para proteger os cidadãos do flagelo e o descaso com a vida de milhares dos brasileiros, confirmados na reincidência de Bolsonaro ao sair no domingo para confraternizar com a malta que o apoia pelo fim do isolamento social para evitar a rápida expansão do coronavírus.

Ou seja, Bolsonaro e sua trupe defendem a barbárie, o olho por olho, uma terra onde cidadãos reajam à bala quando se sentirem lesados, inclusive diante das restrições impostas pela Covid-19, que possam sair atirando no prefeito que exigir confinamento. “O povo armado jamais será escravizado”, bradou ao defender o armamento escancarado da população. Soou a ameaça e deboche. É uma versão troglodita das palavras de ordem “o povo unido jamais será vencido”, usadas nos protestos contra a ditadura.

Bolsonaro se assemelha a antigos governantes de sua cepa, como Hitler e Mussolini, inclusive no discurso em que repete frases que parecem saídas da boca do Duce. É da mesma catadura de outros ditadores contemporâneos que usaram a democracia para se eleger e, em seguida, a distorceram e usaram para realizar seus projetos de permanência no poder. Sem escrúpulos, nenhum pudor, agora apela para a banda podre, negociando cargos em troca de apoio a um possível processo de impeachment. Uma turma da velha política com a qual Bolsonaro conviveu alegremente por quase três décadas. Que, como ele bem sabe, custa caro. Mas pode ser importante no planejamento de uma aventura que pode nos levar a desgraça ditatorial.

Deixe uma resposta