Hélio Ambiental

Do modernismo de 22 até o decênio de 1950, a Arte Brasileira, apresentava, notadamente, certo domínio de figuração. A intenção da pintura, tradicional, obediente às circunstâncias históricas – proclamava em suas linhas, a objetivação de um ideário correspondente às demandas do momento Brasil -, circunstanciado à canonização da arte vigente à época.

No decênio de 50, ocorre uma ruptura. Parecia que as experiências motivantes da figura humana, haviam, por certo, esgotado sua importância até então.

Pois novos fatores – intervenientes – como: Construtivismo Russo, Neoplasticismo Holandês, os princípios proponentes pelas Bauhaus, bem como o conceito da visão harmônica de Max Bill; dariam, por conseguinte, à Arte Brasileira, novas identidades, assimiladas que foram pelos artistas, agora, deflagradores de uma nova concepção plástica “transperceptiva”, inédita, revolucionária para os moldes conservadores de nossa “atrasada brasilidade”; ou como defende o crítico Ronaldo Brito: uma Arte “romanticóide”.

Fica clara a ação concreta de quando do Manifesto do Grupo Ruptura, de 1952, que, em certo trecho proclamará: “não há mais continuidade”, “a história deu um salto qualitativo”. Lotar Charroux, Sacilotto, G. Barros, dentre outros, faziam parte do elenco do grupo concretista de São Paulo.

Também em 1952, o lançamento da Revista Noigandres, capitaneada à época pelos poetas – também concretos: Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari.

Em 1959, um grupo divergente da “disciplina programática” paulista, conceberá uma visada, um postulado, contrário, antinormativo, formulando um universo de valores geometrizante. Aluísio Carvão, Lygia Clark, Ivan Serpa, Décio Vieira, Hélio Oiticica, faziam parte do grupo. Abstração e Geometrização. Estes os novos eixos-propulsores da nova frente de ação à Arte.

No mesmo ano, já de formação consagradora, nasce o Neoconcretismo do Rio de Janeiro; tendo à frente o poeta Ferreira Gullar, responsável pelo texto do Manifesto Neoconcreto. Ainda contando com as participações e Mario Pedroza, Amilcar de Castro, Franz Weissman, Lygia Clark, Ligia Pape e Hélio Oiticica.

A partir da “proclamação” do Movimento Neoconcreto, o Nome de Hélio Oiticica desponta como um elemento disparador de uma nova concepção teórica-estética-artística em razão dos novos tempos que se apresentavam. Sua energética impulsividade teorizante, sua vibrátil trajetória de criador, como ele mesmo seu auto-proclamava: “Agora, sou filho de Nietzsche e enteado de Artaud…” o posiciona numa categoria extra junto ao elenco Neoconcreto. Através de uma ideia de monocromia, Hélio já pronunciava, de pronto, uma programática de vanguarda; já que toda sua produção, segundo ele, defendia a hipótese de programas, e, a partir desta “programação”, Hélio partia rumo aos planos de cor.

Com apenas 17 anos já fazia parte do Grupo Frente. Neto de um dos líderes do Movimento Anarquista no Brasil: José Oiticica. Sempre dionisíaco. Atuando sempre em criar inventos de ambientes. Concebia a proximidade perante o fator-cor. Já que sempre esteve bem próximo a Klee, Duchamp e Mondrian.

Em face disso, sua inconformada atitude ao cânone vigente na Arte Brasileira; aquela ortodoxia engessante da simples contemplatividade do também ortodoxo quadro, ou o que Hélio determinava: “uma nova moral, ou melhor: derrubar todas as morais.” Pretendia sim, a interatividade, um contato tátil com a obra, exemplo assim se registra com seus “Parangolés”: como se o corpo da dança se fizesse em outro corpo, uma pele do pano cromatizado coreográfico no espaço da música. Sua estadia no morro da Mangueira lhe incorporava uma nova atitude face à Arte.

Pretendia novos “ambientes”. Hélio, criador de Penetráveis, Bilaterais, Bólides, Meta esquemas; bem como seus Delírios Ambulatórios, passeios onde sua visão percebia “achados” do rejeito urbano, certos ready-mades perdidos na profusão da metrópole.

Hélio Oiticica preconizava uma união dionisíaca de poesia, música e dança, a perfazer uma Arte-Total. Ou como ele sempre defendera:

“O que faço é Música”

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