Além do caos e da loucura

Hoje acordei cedo. Ontem acordei tarde. Pois é, nessa maldita quarentena, nunca sei a que horas vou acordar. Cada dia é mais arrastado que o outro. Tem também noites muito longas e outras muito curtas. Alguns dias são tediosos e outros nem tanto, são só deprimentes mesmo. Alguns problemas de ordem pessoal fazem da angústia uma depressão que não passa nunca. O caos que tomou conta da humanidade, veio lembrar a todos do quanto a coisa ainda pode piorar. Dizem que essa pandemia tem demonstrado uma severa descompensação mental em quem já tinha doença psiquiátrica prévia. Para mim, muitos por aí já enlouqueceram.
A primeira coisa que tenho contato quando acordo, é a atualização do mortômetro, um sistema de informações dos infernos que contabiliza os mortos da peste. A mídia faz questão de dizer que a cada dia há um recorde de mortos. Fico imaginando se li ou escutei direito. Afinal todo dia não morre gente do tal Covid-19? Então como não superar o dia anterior? Vejo então que a pandemia causou um efeito colateral insuperável em muita gente: a imbecilidade.
Daí por diante as notícias se sucedem com as mais escabrosas informações sobre covas coletivas, caixões amontoados e hospitais estrangulados. Esgotado o caos da saúde pública, em seguida é mostrado o caos político, com os desmandos e insensatez de todos os homens que se dizem donos do poder nesse Brasil perdidão da silva. Não há boas notícias nessa terra e nem no mundo.
Há alguns dias tenho visto que a coisa mudou… pra pior. Um policial branco americano sufocou um negro, já imobilizado, até a morte. O mundo, represado na quarentena insana, explodiu. Foi a gota d’agua que faltava para se liberar a revolta que essa vida de privações está causando em todo mundo. O inevitável movimento antirracista que se seguiu serviu para cravar uma estaca no peito da velha geração e despertar a fúria desastrada de uma nova que apanhou na bunda de pantufa, os afetadinhos.
Essa turminha do politicamente correto, decidiu que o mote agora é massacrar estátuas de figuras históricas que compactuaram, em séculos passados (como?), com a escravidão e o racismo ou mesmo que foram contrários aos preceitos morais modernos da geração Iphone. Dizem que em Boston já decapitaram Cristóvão Colombo e que as próximas vítimas serão Thomas Jefferson e James Madison, figuras exponenciais da história americana, não escaparão dos radicais revisionistas da velha história. Até Churchill já sofreu na pele essa vingança. Ou seria no mármore? Picharam seu monumento em Londres. Por aqui já se fala em linchar Borba Gato, um maldito bandeirante com biografia racista. A ignorância da falta de contextualização histórica é tão escandalosa que só encontra parâmetro, vejam só, no Talibã, grupo terrorista fundamentalista, que andou explodindo diversas esculturas de Buda. Tudo indica que essa geração politicamente correta, tem a convicção de ter conseguido a proeza de pegar na merda pelo lado limpo, como diria um amigo de tiradas sarcásticas. Será?
Não sei o que virá depois desse caos e da loucura, mas não me parece nada alvissareiro. Basta o que recentemente aconteceu numa certa Macondo brasileira, um lugarejo composto de duzentas casas de barro e taquara, escondida nos confins da Amazônia, quando a pequena população matou a golpes de borduna o único médico da região porque achavam que ele tinha enlouquecido e dizimado os habitantes daquele lugar esquecido por Deus.
Dizem os mais velhos que com a chegada da peste, o doutor começou a orientar a população para que ficasse em casa lavando as mãos de vez em quando. Proibiu o uso de máscaras de forma indistinta, dizendo que só os doentes deveriam usá-las. Passeou de carro pela cidade com um alto-falante gritando que ninguém se preocupasse com isso, pois tinha a cura para a peste. Era só tomar preventivamente um remédio para a malária que todos estariam salvos. Disse mais: que a descoberta tinha sido do Coronel Aureliano, um experiente militar que dava as ordens na região. O povo comemorou.
A peste demorou a chegar e o velho e experiente esculápio mandou todo mundo sair de casa e ter vida normal. Novamente o povoado comemorou. Mas logo começou a morrer muita gente e o bom doutor percorreu novamente a cidade chamando todo mundo de irresponsável e que deveriam ter usado máscaras em todos os lugares onde quer que fossem, negando colericamente que dissera algum dia que o tal remédio curava peste alguma. Não deu outra, o arraial se revoltou com aquele pajé maluco e com o coronel. Resolveram justiçar o médico ali mesmo. Do coronel nunca mais se ouviu falar por aquelas bandas. Que me perdoe então Gabriel Garcia Marques pelo infeliz furto literário, mas certamente devo estar também ensandecido.

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