Compulsão popular

A quarentena imposta testa a todos e quando modificada pela flexibilização leva o público à ilusão de que o pesadelo acabou e daí a tragédia repetitiva de mais concentração popular seguida de registros de mais casos e também de óbitos. Segue-se o isolamento, o tédio, a ansiedade, para lá na frente repetir-se o trágico ao primeiro afrouxamento. Sísifo conduzindo a rocha ao cume da montanha, vê sua marcha interrompida pela pedra rolando abaixo e depois repetindo a faina com o mesmo roteiro. Alguns sugerem que a repetir o ciclo trágico, Sísifo se mostra, ainda que inutilmente, maior que o seu fadário. Sísifo sifu? Não, ele persiste na marcha aparentemente inconsequente como tantos da quarentena esperando o primeiro sinal de baixa de guarda para viver, ainda que por pouco tempo, a ilusão da fantasia de que tudo acabou. Há quem acredite que o homem se modificará quando a pandemia se for: será outro, mais solidário, com maior noção de suas fraquezas e de sua resistência. Enquanto condenado ao isolamento viu pela televisão que nuvens de areia do Saara cobriram praias do Caribe, que a vespa assassina chegou aos EUA e que gafanhotos atacaram cidades argentinas. Nossa pretensa vocação para a liberdade não se saiu bem no teste e de repente lembramos de Nelson Mandela aprisionado por décadas, herói moderno, que não dava espaço à depressão.

 

Fernanda Carvalho/Fotos Publicas

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