Deixo o poeta arder

A música no jardim
tinha dor inexplicável

Anna Akhmátova

Quando eu for […]
contem o número de mosquinhas do banheiro

Mariana Marino

Não cheguei nem perto, ouço só o que dizem, mas sei o que está escrito. E é assim que começo nossa conversa, numa confusão entre vida e morte, num segundo olhar atrasado, sabendo estar tomada por uma doença que não distingue quem sonha do que é sonhado. Um encontro agitado, mas longe de amarras.

Em O jardim, a tempestade, o poeta está doente, não há o que fazer, deixe-me mergulhar nos detalhes do seu corpo, deixe-me contar cada detalhe das suas dores crônicas, essas que não importam, mas que ficam a chamar atenção, palpitando estômago ou inflamando olhos. Aqui, não existe fuga do osso torto do pé que atravanca um dia no jardim, aqui, o corpo é monturo de seara. Por isso, brinca-se com os tumores, os benignos e os que derrubam, enfim. Mas por saber que a morte não conclui nada, decide-se morrer só para checar se o montepio funciona.

O poeta morto duvida da continuidade da presença depois da provação, mas se funcionar, a morte cambaleia. Se esparrama em sua baba, a casa de todos os poemas. A baba que é água viscosa, se espalha por todo o espaço. Ainda há fluidez, diz o poeta que já não está doente, brinca com o inacabado. E tudo se transforma. Contam-se três olhares ao jardim. Parece que é o lugar onde se está, não onde quer chegar. Ainda há ternura. Preserva-se o constrangimento do jardim, quando o sol estrala suas carecas ou quando derruba seus cabelos no chão. É preciso aprender a abordar um jardim, não o observar em chuva ou sol exagerados.

No espaço do jardim existe um Adam complexo. Um osso para Wilson Bueno. Mulheres loucas numa noite de orgia em barcos naufragados. Contudo, existe uma turca com peitos fartos e uma mulher negra que incomoda. Elas pouco se expandem, o jardim parece então ter um limite para o poeta que escolhe sonhar e morrer. O jardim não é a floresta, ele impõe suas fronteiras. Mas esse, por trabalho de uma escrita ligada ao estado de descanso e de sonho, convoca a tempestade. Ainda há água na terra.

O poeta morto não encerra suas questões, sente-se livre para ser outras e adentrar delírios tão esperados. É uma morte coletiva em primavera doce, cadáveres amontoados lembrados pelas moscas, tão queridas. É uma rainha, uma velha, uma turca, uma viúva, uma costureira.

Guardo a viúva e a costureira agora. Pois, primeiro, decide ser a que fica para sentir suas dores. O poeta morto escolhe ser o seu próprio pesar, os meus sentimentos. Mas também é aquela das mãos ágeis, que desenha e tece todos os que ficam e veste a mãe para a morte. Sabemos que quando o filho vai, os olhos da mãe secam. A mosca, a aranha, a que ronda e a que renda. Ainda há obsessão, coisas que só os poetas mortos enxergam.

Termino assim, minha conversa com o poeta que não conheci e que deixo incendiar.

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