As democracias midiáticas

O Brasil é motivo de chacota no mundo. Se perguntarem a um europeu anônimo sobre o nosso país ele terá dificuldades em juntar duas ideias sérias a respeito.

Mas se falarem do presidente Bolsonaro que acredita que a terra é plana, que defende a tortura, que é contra o isolamento social, que receita cloroquina e diz que a covid-19 é apenas uma gripezinha, terá uma reação que mistura horror, deboche e, talvez, pena de nossa desgraça.

Infelizmente o palhaço Tiririca estava errado. “Pior do que está, não fica” era o seu slogan. Ficou. Tiririca, acreditem, foi o último grande politico brasileiro a cruzar o Atlântico. Tiririca é produto de fácil exportação porque é um fenômeno da televisão. Uma virtude? Longe disso. E os brasileiros deveriam saber, por experiência própria, que a crise também se explica por esse padrão: durante anos, os brasileiros não votaram necessariamente nos melhores candidatos. Apenas nos candidatos que tinham maior sucesso midiático. Deu no que deu.

Esse, aliás, é o problema principal das democracias atuais. A democracia é o pior regime que existe, com a exceção de todos os outros? Sem dúvida. Mas existe um outro pensamento de Churchill sobre o assunto que também merece atenção: dizia ele, com típica bonomia, que o melhor argumento contra a democracia estava em falar durante dois minutos com um eleitor regular.

De fato. Uma cabeça, um voto. Em teoria, essa contabilidade pode ser um bálsamo para a nossa “paixão pela igualdade”, para usar a expressão clássica de Alexis de Tocqueville (1805-1859) que meu amigo Luca Rischbieter admira e segue. Mas o que sucede quando a maioria escolhe barbaramente mal? Ou, pior ainda, quando escolhe o candidato errado pelos motivos errados?

Tocqueville, cem anos antes de Churchill, já tinha alertado para o problema na obra “Da Democracia na América”. A “era democrática”, escrevia ele em 1835, seria imparável nas sociedades cristãs do Ocidente. Mas a “era democrática”, capaz de conceder a cada indivíduo iguais direitos e deveres, não apresentava apenas virtudes. Tinha perigos óbvios e o maior deles estava precisamente na ideia de que quantidade é qualidade.

Ou, como escreveu o autor, na crença infantil de que existe “mais inteligência e sabedoria em um certo número de homens unidos do que em um único indivíduo”. Com notável presciência, Tocqueville alertava para as “tiranias da maioria” e aconselhava alguns freios para evitar os seus excessos: descentralização política, liberdade de imprensa, reforço do associativismo, separação de poderes etc.

O que Tocqueville não poderia antever no século 19 era a emergência de um novo tipo de regime democrático no século 21: a democracia midiática, esse sistema que premia os talentos superficiais de um indivíduo (imagem de plástico, discurso populista, sentimentalismo postiço) e ignora as qualidades fundamentais de um líder (coragem, experiência, competência, temperança).

Eis a suprema ironia: a mídia assume-se como o “quarto poder”, destinado a vigiar e a denunciar os abusos de todos os outros. Mas a própria mídia serve de instrumento, voluntário ou involuntário, para dar luz e palco a personagens que jamais seriam eleitas por suas exclusivas habilitações.

O resultado dessa perversidade é que cresce cada vez mais o abismo entre políticos que merecem ganhar eleições (independentemente da imagem) e políticos que podem ganhar eleições (independentemente da competência). A democracia midiática, ampliada e agravada pela internet, premia os segundos e ignora os primeiros.

Hoje, o obeso Churchill e o paralítico Roosevelt seriam ofuscados por um palhaço qualquer do tipo Trump ou Bolsonaro. Azar o deles? Não. Azar o nosso. Quem elege palhaços, acaba vivendo num circo. Ou num hospício.

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