O horizonte é de atenção

O Corona Vírus entrou no Brasil com aqueles que estavam voltando da Europa. Primeiro pelos bairros de classe média alta e depois começou a se espalhar. Isso se deu em todo o país e em Curitiba não foi diferente.

Mesmo que o vírus tenha entrado por bairros mais abastados logo já estava nos bairros de periferia e então os números começaram a mostrar outros problemas, bastante antigos e esquecidos propositalmente no Brasil: a desigualdade social e o racismo.

A revista inglesa The Lancet Infectious Diseases ­identificou através de dados sociodemográficos e evidências hospitalares os grupos com maiores propensões de risco para a doença. Com testes em 3.802 pessoas, das quais 587 deram positivo, entre o dia 28 de janeiro e o dia 4 de abril, o estudo concluiu que além do fato da idade e das doenças pré-existentes, o local de residência também tem um papel fundamental no contágio. Habitantes de cidades, por exemplo, têm maior risco de infecção, sendo 26,2% presente no estudo. Assim como os moradores dos bairros mais pobres, 29,5%.

No Brasil, de 11 a 26 de abril, as mortes de pacientes pretos confirmadas pelo Governo Federal cresceram de 180 para mais de 930. Ainda, os pacientes pretos hospitalizados por Síndrome Respiratória Aguda (SRAG) aumentou 5,5 vezes mais. A diferença percebida também se dá entre os óbitos. Para cada 3 mortes, uma é de pessoa preta. Entre os brancos, o número é de 1 para cada 4,4. Esses dados são da Agência Pública com base nos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde que foram divulgados até 26 de abril.

Com o encerramento da apresentação desses dados ficou ainda mais difícil de compreender como avança o vírus no país e, principalmente, como afeta os bairros mais pobres. Questionado, o Ministro Nelson Tech à época respondeu que as questões da cor e da raça não eram um fator de risco. Uma resposta um tanto rasa para a discussão sobre as relações de desigualdade de acesso à saúde e saneamento de qualidade pela população preta no país.

Para elucidar a situação, algumas evidências já demonstram o descaso com dados importantes como os retirados pelo governo. A maioria esmagadora das mortes do Amazonas, primeiro estado a chegar ao colapso do sistema de saúde, era de pessoas pretas. A secretaria registrou cerca de 340 mortes de pessoas pretas, enquanto entre brancos foram 25. Esses dados também foram disponibilizados somente até 29 de abril. Sem eles as dificuldades para ampliação de políticas públicas de cuidado e prevenção aumentam e são inviabilizadas. Além de esconder o problema, mais uma vez ofuscado por falas como a de Tech.

Christiane Gomes, coordenadora de projetos da Fundação Rosa Luxemburgo e integrante do coletivo Ilú Obá de Min, afirmou a Agência Pública que a pandemia escancara a exclusão das pessoas pretas no Brasil, a identificar que o fato nos dados é “fruto de um passado colonial que persiste hoje” e que “no início da pandemia, se dizia muito que o vírus não escolhe classe social nem raça. Mas isso é uma falácia e os próprios números que comparam a quantidade de mortes em bairros como o Morumbi e a Brasilândia exemplificam isso”. Estes, também dados da Agência que mostraram que entre os bairros com maior porcentagem de pessoas pretas haviam triplicado no período anterior ao encerramento das divulgações dos dados.

Aqui, a questões social da desigualdade deixa pessoas pobres e pretas à margem dos cuidados e do acesso a melhores condições de tratamento. Permitindo, então, mais óbitos entre elas. Mais uma vez o Brasil escolhe o caminho de um quase discurso de democracia racial que nunca existiu. As pessoas pretas e pobres estão sendo mais afetadas pelo vírus pela exclusão.

Outra questão relevante foi levantada por Gomes sobre a relação de classe social, raça e gênero nos números que crescem no país. Pois se o vírus entrou por uma classe, ele avança em outra que não pode parar para proteger e cuidar de si, precisa se locomover para cuidar de outras pessoas. Uma história repetida nas mais diversas facetas no Brasil.

“Por exemplo, quem trabalha mais no trabalho doméstico? São as mulheres negras. Quem trabalha mais nos serviços de estrutura, de segurança? Enfim, que é a base da pirâmide social brasileira? É a população negra. Então, é essa população que está mais vulnerável e é a que menos consegue fazer isolamento social. Estamos falando de um problema macro, o Brasil é um país que tem o racismo na sua estrutura”.

Em Curitiba não temos dados em relação a população negra e estamos vivendo, de acordo com a Secretária de Saúde, Márcia Huçulak, o período de pico da doença que já se encontra em todos os bairros da cidade. A maior parte dos casos que até maio se concentrava na região central, em julho já mostra crescimento na região sul e periférica, com o Cic, Sítio Cercado, Umbará, Campo de Santana e Tatuquara entre os bairros mais atingidos. Esses bairros em sua maioria fazem fronteira com a região metropolitana, a demonstrar que ali estão as pessoas que continuar a se movimentar para trabalhar e não podem permanecer em casa de quarentena. Seminário, São Brás, Guaíra e Pilarzinho também tiveram crescimento nos números de casos, de 267% para 333%.

A prefeitura da cidade faz seus boletins diários sobre a doença e toda sexta-feira apresenta um painel com dados sobre o avanço entre faixa etária, gênero, localização etc, mas de acordo com Maria Carolina Mavizeiro, coordenadora do Laboratório de Habitação e Urbanismo da Universidade Federal para a RPC, ter esses dados difundidos facilitaria no desenvolvimento de estratégias de defesa e prevenção para cada região. De acordo com Mavizeiro, além das construções de ações emergenciais por parte do poder público, seria importante nesse momento crucial da cidade, trabalhar em conjunto com as produções das comunidades.

Com a última atualização dos dados, no domingo de 26 de julho, o acréscimo foi de 245 casos novos e mais 5 óbitos, chegando a 465 mortes em Curitiba. Os casos confirmados são de 17.033 com 8.576 recuperados.

A situação se agrava e os leitos de UTI’s lotam, a chegar na sexta-feira (24 de julho) a 92% de sua capacidade. Agosto vem aí, um mês interminável pela frente e as ações necessárias ainda são a de permanecer em casa e se precisar sair, utilizar a máscara corretamente (cobrir nariz e boca), fazer distanciamento social, etiqueta respiratória e lavagem das mãos. Propagar informações corretas também é uma ação de cuidado, ao mesmo tempo que ter acesso a elas é uma condição de responsabilidade. Além do avanço nos bairros pobres, são necessários o cuidado e a prevenção entre a população periférica e preta de Curitiba. Esquecer os dados e continuar o apagamento não é a saída. O horizonte ainda é de muita atenção.

#FiqueEmCasa #UseMáscara

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