A pirâmide perversa

Há uma certa medida de consciência culpada na insistência com que se descobre a obviedade da sociedade de castas em que vivemos nos números da Covid-19, o que embora enriqueça a bibliografia da nossa pobreza fundamentalmente não a altera. E isso não é feito apenas com dados regionais e também com números cósmicos. Há quem diga “quando me falam em desigualdade fico de pé atrás”, o que não faz dessa pessoa um símbolo de perversidade, talvez, intentando crítica à obviedade dos raciocínios e ao fato de que não se muda a realidade.

Recentemente um inquérito sorológico em São Paulo mostrou que 11,1% da população contraiu o vírus. Percebeu-se nesse mostruário estatístico, o mais denso e diversificado do país, que a incidência da patologia é maior na população preta e parda (14,1%), nos de renda mais baixa que integram a classe E (17,7% frente a 4,6% da classe A) e com baixa escolaridade (36,7%). De um modo geral em escala nacional ficou evidenciada a permeabilidade da difusão da doença em favelas e palafitas e aí também pela obviedade da estreiteza de espaço ocupada por um maior número de pessoas, além de serem menos dotadas em infraestrutura de água e esgotos e da inexistência de sabão e outros elementos de higiene. Esse ecoambiente é fator de amplitude dos contágios e leva a raciocínios como aquele referido pelo presidente de que o sujeito mergulha no esgoto e continua vivo, como se esse ajuste fosse uma garantia de defesa contra todos os males.

Como se já não bastasse o manancial de fatores classistas que operam contra a pobreza dos pretos e pardos e dos de baixa escolaridade a pandemia acentua os riscos como se fosse o inverso da partilha de rendas: a participação do vírus na classe A é tão somente ¼ da classe E. Afinal um tema rico para as artes da inclusão social em que vamos tão mal e não há sinal de que essa constatação vá além de aprimorar e diversificar a bibliografia a respeito.

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