Sobre o imposto do livro

Falar em defesa do livro pode soar no Brasil um problema de classe média que não quer pagar dez reais a mais no preço de capa enquanto milhares de brasileiros não têm comida. É mentira! Isso seria cair na argumentação deles, é a partir daí que Paulo Guedes defende o imposto. Mas, desonestamente, ele chama de “elite”. No Brasil, os livros mais vendidos são os religiosos e de autoajuda (que se confundem), o que faz sentido. Você olha pro país e pelo amor de Deus, me ajuda!
No Brasil, em 1890, 84% da população era analfabeta. Em 1940, 54% ainda não sabia ler. Hoje, embora quase 100% da população seja alfabetizada, não são poucos os que têm dificuldades em compreender um texto, muito em vista por causa da nossa língua que é colonizada e no papel não funciona como na fala, como no país de origem. O número de livros editados entre 1938 e 1950 cresceu 300%. A Constituição de 1946 garantiu a isenção fiscal. Entre 1936 e 1944 houve um crescimento de 46,6% no setor livreiro, impulsionado pela implantação da produção de papel: fabricação própria.
Bom, tem bandido no meio? Tem. Por se tratar de livro parece que todos são uns anjos abençoados que só querem o bem cultural do país, é mentira. A ausência de imposto serviu para aumentar o lucro sim. Mas aqui falamos só das grandes.
“O Luiz Schwarcz [presidente do grupo Companhia das Letras] aparece na mídia fazendo campanha, se declarando apaixonado pelo livro. Acho piegas, sou bem crítico. Esses grandes grupos editoriais, ao longo desses anos todos, praticaram uma política comercial bastante diferente, oferecendo descontos muito maiores para Saraiva e Cultura do que para as pequenas e médias livrarias. Ele não teve paixão pelas livrarias pequenas na última década”, falou Evandro Martins Fontes.
Em 10 anos (2007-2017), os pequenos livreiros (até nove funcionários) e pequenas papelarias representaram 20.912 das 21.083 livrarias e papelarias que fecharam no país. Eu quero ser escritor, mas não dá, não dá pra mim nem pra ninguém, porque é preciso ser escritor e outra coisa. Não há no Brasil um mercado que possibilite isso. Nunca houve. Desde sempre no Brasil não deu pra ser escritor. Ou era-se playboy ou funcionário público ou jornalista. Só escritor não. Não há consumo. Com imposto haverá menos. Paulo Guedes não tem que “distribuir livro pra pobre” tem que distribuir dinheiro. Chovo no molhado. Se 64% leem livros religiosos é porque já abandonaram a fé no país e se agarram em Deus. 12% leem poesia. 11% história, economia, política, filosofia ou ciências sociais.

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