A vergonha de cada um

Há tempos queria escrever sobre os dias cínicos que vivemos. Se tivesse espaço e tempo, narraria com prazer as incontáveis histórias de vergonha que ouço, leio e vejo todos os dias. 

O fato é que quando me deparo com situações dessa natureza, nunca deixo de pensar em Dom Pompório, o monge glutão que costumava “envergonhar” o mosteiro em que vivia, por comer excessivamente. De autoria do contista italiano Franco Sachetti (1332-1400), que com seu bom humor, publicava histórias cheias de comicidade e crítica sarcástica aos costumes da época, nosso monge, embora glutão, era um tipo inesquecível, inspirado e observador, que mostrou pela fábula como a vergonha anda afastada das pessoas. 

Não tenho dúvidas que vivemos tempos ainda mais desavergonhados, onde os costumes e atitudes padecem de qualquer recato. É uma época desprovida de bons modos, educação e consideração moral e que anda a cada dia mais distante da vergonha. São tempos estranhos e surreais aos quais hoje, já não posso mais me manifestar sob pena de responder a um processo ou mesmo ser “cancelado”. Infelizmente sou politicamente incorreto, o que implica necessariamente numa punição social: minha voz já não pode mais gritar, no máximo sussurrar e estou proibido de me indignar. 

Reputo que são tempos que fariam Tim Maia corar pela letra puritana da sua “Vale Tudo” em que pregava o “vale o que quiser, vale o que vier… São tempos de merda e de maus poemas, lembrando uma frase de Affonso Romano de Santana. São tempos em que a vergonha há muito fugiu desse mundo recusando-se a voltar. Então pensei comigo mesmo que a fábula de Dom Pompório não só é cada dia mais atual, como não merece qualquer reparo. A historieta é tão brilhante que merecia ser reproduzida na íntegra, mas aqui, por economia de espaço, vai o trecho mais importante. Ei-la: 

 

Respondeu Dom Pompório: 

– E como deveria envergonhar-me, padre? Onde se encontra agora a vergonha no mundo? E quem a teme? Mas, se me dais licença para falar com segurança, responder-vos-ei; se não, obedecerei a vossas ordens, e observarei em silêncio. 

Disse o abade: 

– Dizei o que vos aprouver, que estamos contentes em que faleis. 

Tranqüilizado, disse Dom Pompório: 

– Encontraram-se, já faz muito tempo, o vento, a água e a vergonha numa taverna, e comeram juntos; e, praticando de coisas várias, disse a vergonha ao vento e à água: – “Quando, irmão e irmã, voltaremos a estar juntos tão pacificamente como agora?” A água respondeu: – “Certamente a vergonha diz a verdade; pois quem sabe quando virá ocasião de nos reencontrarmos juntos? Mas, se eu te quisesse encontrar, ó irmão, onde fica a tua morada?” Disse o vento: – “Minhas irmãs, cada vez que me quiserdes encontrar para gozarmos o prazer de estar juntos, olhai por qualquer porta aberta, ou rua estreita qualquer, que logo me encontrareis, pois é ali a minha residência. 

E tu, água, onde moras?” – “Eu estou, disse a água, nos mais baixos paus, entre aqueles caniços; e por mais seca que seja a terra, sempre lá me encontrareis. E tu, vergonha, qual é a tua estância?” – “Eu, em verdade, respondeu a vergonha, não sei, pois que sou pobrezinha e por todos enxotada. Se olhardes entre os grandes, não me encontrareis, porque não querem ver-me e zombam de mim. Se olhardes entre a piche, são desavergonhados que não se importam comigo. Se olhardes entre as mulheres, tanto casadas como viúvas e donzelas, tampouco me encontrareis, dado que fogem de mim como de coisa monstruosa.  

Se olhardes entre os religiosos, longe deles estarei, pois que com bastões e galhas me espantam; de sorte que até agora eu “não tenho habitação onde pousar; e, se não puder acompanhar-vos, veja-me privada de toda a esperança. Ouvindo isto, o vento e a água moveram-se a compaixão e acolheram-na em sua companhia. Não ficaram juntos por muito tempo, porque se levantou grandíssima tempestade, e a pobrezinha, trabalhada do vento e da água, não tendo onde pousar-se, afundou no mar. Pelo quê eu a tenho procurado em muitos lugares, e anda a procuro; mas não consegui encontrá-la, nem a ela, nem a ninguém que me soubesse dizer onde ela estava.  

E, não a encontrando, não me importo dela nem muito em pouco; e por isso obrarei à minha maneira, e vós à vossa, pois que hoje no mundo não se encontra a vergonha. 

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