A consciência culpada

Com a pandemia estamos assistindo a uma persistente, e isso além do mundo acadêmico, avaliação dos nossos padrões de desigualdade e num nível não limitado à questão racial para uma apreciação sobre os estratos de classe econômica. Dá a impressão de uma espécie de sentimento de culpa como se a Covid-19 nos convocasse para uma ida a um divã coletivo de psicanálise ou confessionário religioso.

Tudo começa com a obviedade da maior taxa de risco aos mais pobres, evidência das nossas grandes cidades nas favelas, onde a estreiteza dos espaços impede a adoção de cuidados do distanciamento, de resto também expressa nas aldeias indígenas. De outro lado, temos em nível internacional as manifestações antirracistas e que acabam ingressando em temática eleitoral nos EUA com Trump pregando a lei e a ordem contra a ira popular e em defesa do poder repressivo do Estado.  

O IBGE entrou de braçada na questão das desigualdades e fez avaliações de diferenciação de classes na adoção de mudanças ocupacionais ditadas pela crise como a do home office que ocupa 13% no Sudeste, eixo mais desenvolvido do país, enquanto só abrangeria 4% no Norte.  

Dos 8,4 milhões de trabalhadores remotos do país (perto de 10% da população ocupada) em julho a metade, 4,9 milhões, estava no Sudeste, na região mais desenvolvida e concentradora de profissionais mais qualificados, 13% dos trabalhadores se valeram do sistema remoto na fase mais aguda da quarentena. No outro extremo do mapeamento apenas 252 mil pessoas em home office na região Norte, significando 4% do ocupados. No Sul havia 9% em igual situação com o Centro-Oeste, enquanto no Nordeste eram 7,8%.  

O discurso da desigualdade permeia todas as avaliações em andamento, mas não se tem segurança de que isso transforme a realidade tão cristalizada e acabe sendo tratado como o flagelo do racismo, tanto lá nos Esteites como aqui, componente estrutural da sociedade.  

 

Foto: Reprodução/Twitter

 

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