“To do or not to do”

Shakespeare, através da peça “Hamlet”, no ano de 1600, lançou uma das frases indagativas mais perenes que se conhece “to be or not to be, it’s a question”. Ser ou não ser, eis a questão.

Modernamente, em tempos de pandemia, muito provavelmente esse maravilhoso autor nos trouxesse outra indagação, a que dá título a este artigo “to do or not to do”, fazer ou não fazer, eis a nova questão. Vejamos o porquê.

A grande discussão que deveria estar circunspecta à medicina, sobre medicações a serem usadas ou não diante de um quadro de covid 19, ou ainda preventivamente a este, tomaram calorosamente as ruas, fomentadas por governantes, jornalistas e médicos travestidos de políticos que por ministérios passaram.

Temos uma corrente científica ortodoxa que se prende unicamente a protocolos, estudos a longo prazo com necessidade, obvia de numero elevado de pacientes e tempo de observação, para que, então, saiam diretrizes relativas àquele assunto.

Fato é que estamos há 5 meses dentro de uma pandemia, numa luta para salvar vidas, ainda atordoados com esse vírus. Esses estudos em andamento, muito bem conduzidos, não há dúvidas, por quem de direito, ainda são inconclusivos com relação às orientações medicamentosas, e isso nos traz o dilema: o que fazer? Há uma diferença gritante entre aquele médico pesquisador atrás de um microscópio ou entabulando estudos, e aquele que está no front, com um paciente febril na sua frente, com dores pelo corpo, tosse, falta de ar e a família desesperada.

Li um artigo curioso dia desses, onde o autor analisava os dois vieses na vida de qualquer pessoa, mas nesse artigo, especificamente na vida do goleiro de futebol e do médico. O viés da ação e o viés da omissão ou inação. Para aqueles que se utilizam do viés da omissão, é mais seguro não fazer nada do que arriscar fazer algo e não dar certo. Exemplo clássico é aquele das pessoas que são contra as vacinas, não temem tanto a doença, mas sim, os possíveis efeitos adversos provenientes da vacina. Justificam-se dizendo para deixar que as coisas sigam seu “caminho normal”, se não der certo podem por a culpa no azar, no destino ou em alguém, ou seja, você terceiriza a responsabilidade.

Já para aqueles que se utilizam do viés da ação, usam a vontade de fazer alguma coisa, mesmo quando a situação lhes autoriza a não fazer nada. Um exemplo muito feliz que foi usado nesse artigo é a figura do goleiro na hora do pênalti, se ele ficar parado e a bola entrar, vai ser cobrado por não ter tentado agir, mesmo diante da dificuldade, ou melhor, da quase impossibilidade de pegar um pênalti. Já se escolher um canto, “tentando” defender, ficará com a sensação de que tentou fazer algo, mesmo que estudos mostrem que a tendência do cobrador chutar no meio do gol é maior.

Nós, médicos, estamos sofrendo muita pressão no sentido de receitarmos ou não medicamentos neste momento frente ao corona. Não há conclusão ainda pelos estudos científicos, porém, existem recomendações de serviços qualificados, no uso de um protocolo tanto para o tratamento, como outro para a prevenção.

O grande problema é a politização de tudo isso, e a falta de escrúpulos do ser humano num momento grave como este. Distanciamento social, uso de máscaras e cuidados com a higiene são indiscutíveis. Na questão medicamentosa, seja curativa ou preventiva, você precisa ter confiança no seu médico, como sempre e claro, seguir suas orientações, pois afinal, espera-se que ele tenha com você os mesmos cuidados que teria com um familiar ou com ele próprio.

Lembre-se que seu médico neste momento é o goleiro na hora do pênalti se ficar parado será criticado por alguns, se tentar fazer algo será criticado por outros. Ele tem que estar centrado nas suas convicções, nas suas qualificações e em boas informações.

Se alguém me perguntar – e você doutor, o que faz? Digo-lhe que nunca fui goleiro, mas adorava bater pênaltis. Adorava ainda mais quando o goleiro não se mexia. Que o vírus não nos ouça.

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