Abre e fecha’ em Curitiba deixou as pessoas sem saber o que fazer, diz Goura

Bem Paraná – O deputado estadual e candidato a prefeito do PDT, Goura, é conhecido por se ativismo em favor da ampliação do uso da bicicleta como alternativa de transporte urbano. Mas longe de ser monotemático, Goura afirma que as duas rodas são o símbolo de um agenda de desenvolvimento sustentável que busca resgatar a capacidade de Curitiba – segundo ele, perdida nos últimos anos – de inovar nas políticas públicas. Agenda essa que passa também por um programa de recuperação econômica da Capital voltado para os pequenos negócios e pelo combate às desigualdades sociais.

Na avaliação do candidato do PDT, a gestão de Rafael Greca (DEM) em relação à pandemia do Covid-19 e seus efeitos foi “errática” e o “abre e fecha” fez com que os curitibanos ficassem sem saber o que fazer. Em entrevista ao Bem Paraná, Goura explica porque essa hesitação do prefeito teria agravado os problemas econômicos provocados pela pandemia, bem como a priorização pela administração municipal dos grandes empresários do transporte coletivo, em detrimento das micro e pequenas empresas duramente atingidas pelas medidas de isolamento social. Leia a entrevista:

Bem Paraná – Quando a gente fala do Goura, muita gente fala: ‘ah, aquele cara que só fala de bicicleta”. O que o senhor diria para quem pensa assim?

Goura – Eu diria que a bicicleta, obviamente, faz parte da cidade. Deve fazer parte muito maior. Atualmente, a pesquisa origem-destino de Curitiba aponta que cerca de 2% dos deslocamentos diários são feitos em bicicleta. É muito pouco ainda pensando o potencial que a gente tem. E um prefeito que se diz urbanista deveria agir com um sentido de urgência. Dizendo que ‘não, ok, 2%? Vamos ampliar para 4%, 8%”. Vamos fazer com que a promoção da saúde seja um objeto a ser perseguido pela gestão pública municipal. A gente não está falando de bicicleta apenas porque eu sempre andei de bicicleta, acho que Curitiba é uma cidade sensacional e com potencial para aumentar em muito o respeito ao ciclista e fazer com que mais pessoas se sintam seguras de pedalar em Curitiba. A maior parte das pessoas não pedala porque não se sentem seguras. Obviamente. Se criou binários com velocidade superelevada, como você vai deixar seu filho pedalar com segurança. Não vai. Mas a gente não está falando, obviamente, só de bicicleta, mas de toda uma agenda de desenvolvimento sustentável, que diz respeito às pautas sociais, ambientais, de valorização do serviço público. Então a gente quer que a bicicleta é um símbolo de saúde, uma população que é estimulada a caminhar, pedalar, vai ser mais saudável, uma população que vai estar ocupando a cidade. E quanto mais gente na rua, mas a rua se torna segura. Então a bicicleta, obviamente, vai fazer parte da minha gestão. Mas a gente quer vê-la dentro dessa agenda de desenvolvimento sustentável e social.

BP – Se hoje fosse 1º de janeiro de 2021, e o senhor fosse o prefeito eleito, qual seria sua primeira medida?

Goura – Nossa primeira medida será convocar toda a sociedade civil organizada, as entidades, os servidores públicos para uma reformulação de ações, práticas, envolvendo a economia da cidade, o fortalecimento dos pequenos comerciantes, empresários. Um plano emergencial para a gente recuperar a economia de Curitiba, pensando nos impactos drásticos que a gente teve por causa da pandemia, especialmente a queda de arrecadação, a perda de empregos. A gente quer imprimir na gestão a ideia de que é uma gestão coletiva, participativa, que vai tratar com muito respeito os servidores e os serviços públicos. A gente quer convidar a população a participar ativamente da gestão pública. Entendemos que a prefeitura de Curitiba tem que ser a coordenadora desse amplo processo de retomada da economia, geração de empregos, mas apontando para um ideal de desenvolvimento sustentável. Vamos ter um momento muito difícil no ano que vem, em que o reflexo de tudo que ocorreu este ano vai ser sentido com ainda mais intensidade. Então a gente vai tratar com o máximo de seriedade essas diretrizes de participação, sustentabilidade e de uma gestão que sabe ouvir. Junto com os servidores, sabe valorizar e qualificar o serviço público.

BP – O senhor acabou se tornando candidato na última hora, após a desistência do Fruet. Isso não prejudicou a sua candidatura?

Goura – Pode-se dizer que sim. Mas é o inesperado. Como diz o Guimarães Rosa: ‘a vida espera da gente coragem’. A gente não controla as coisas. Eu respeito muito o ex-prefeito Gustavo Fruet. Acho que teve as razões dele para a sua decisão. Obviamente, da minha parte, sempre manifestei a vontade de discutir as políticas públicas de Curitiba. Logo no início do ano passado me coloquei como pré-candidato, entendendo que o meu mandato como vereador, deputado, minha atuação desde antes, como ativista, cidadão, era uma atuação coletiva, que traz coisas novas para a cidade, um novo oxigênio. A ideia de retomar as cidades para as pessoas, valorizar os pedestres, o uso da bicicleta. Eu gostaria de ter feito um processo muito mais amplo de construção, debates. Pelo menos, o ideal, um ano a gente estar discutindo essa movimentação. Mas não foi o que ocorreu. A gente fez uma força-tarefa desde o dia 12 de setembro para complementar alguns pontos que julgamos importantes do programa de governo que apresentamos e congregar os esforços de voluntários, mobilizadores, que vêem em mim uma candidatura diferente do que seria a candidatura do ex-prefeito Fruet. A gente está trabalhando nesse sentido. Desde que a gente oficializou a candidatura, mais de 800 voluntários já se cadastraram na plataforma querendo ajudar na campanha, querendo fortalecer. A gente conseguiu, no programa de governo, fazer algumas complementações pontuais, apontando justamente com contribuições de pesquisadores, ativistas, movimentos sociais, algumas coisas que a gente julga muito importante para Curitiba. Uma retomada de projetos e ações que foram esquecidas ou desprezadas na atual gestão. Esse é um processo que foi feito correndo. A gente está, junto com isso, organizando uma campanha majoritária com todas as suas complexidades. E as coisas estão caminhando ao mesmo tempo.

Bem Paraná – Curitiba já teve fama de “capital ecológica”. O senhor acha que essa fama condiz com a verdade?

Goura – Ela está longe da verdade. A gente pôde fazer uma pedalada, meu primeiro evento de campanha. Saiu da nascente do rio Belém no bairro do Cachoeira e fomos até o bairro do Uberada, onde encontrou o rio Iguaçu, em todo o percurso, principalmente nos bairros mais periféricos, a gente vê os rios de Curitiba agonizando, muito lixo, poluição. E o estado do rio Iguaçu não condiz com uma capital que se diz ecológica, que vende para fora uma imagem de sustentabilidade. A gente vê que muitas vezes isso é colocado pela atual gestão e também pelo governo do Estado muito mais em termos de marketing, propaganda do que uma política efetiva de compostagem, de tratamento dos resíduos. Curitiba que se diz capital ecológica e atual gestão quer passar essa imagem, não investe adequadamente em ciclomobilidade. A gente não tem um plano efetivo para a melhoria das calçadas e com isso, pensando a pessoa com deficiência, os pedestres, os idosos. A gente não tem conselhos atuantes nos parques. E um planejamento e uma gestão integrada com a região metropolitana. Eu não vejo com a gente possa ter uma gestão de fato “ecológica” sem uma visão integrada da região metropolitana. Curitiba não está restrita aos limites dos rios Passaúna e Atuba. A gente vive em uma região. E o planejamento, o desenvolvimento dessa uma região que tem que ser coordenado por Curitiba está longe de ser satisfatório. A gente tem que avançar para uma ecologia de verdade, na prática, e não só na propaganda.

BP – O que o senhor acha do subsídio que a gestão Greca pretende repassar às empresas de ônibus que deve chegar a R$ 180 milhões até o final do ano?

Goura – Vale a gente fazer um restrospecto. Lembrando que o prefeito Rafael Greca, logo que assumiu, aumentou a passagem em mais de 50 centavos, extinguiu a (tarifa) domingueira. O repasse desses subsídios que vieram tanto do governo do Estado, quanto da prefeitura foram feitos sem transparência. O conselho municipal de transporte, que seria um órgão fiscalizador, não está ativo. Eu fui vereador em 2017, 2018, um dos líderes da oposição ao prefeito. O que a gente tem visto durante a pandemia por parte do prefeito é justamente uma gestão que se preocupa mais, tem mais sensibilidade aos empresários do transporte coletivo e com o seu lucro que de forma alguma pode cair. Do que com a função social do transporte. A gente viu, logo no início, que as empresas cortaram os salários de motoristas e cobradores e o prefeito não falou nada sobre isso. E esse repasse que está sendo feito não traz contrapartidas para o usuário. A tarifa continua uma das mais caras do Brasil. E a gente tem visto essa proximidade entre o prefeito e os empresários que eu acho que não é republicana, transparente e não condiz com uma administração que siga os princípios da gestão pública previstos na Constituição. Eu lembro ainda que o próximo prefeito eleito vai ter um papel muito importante que é de coordenar, junto com a sociedade, pesquisadores, a formulação do novo edital de concessão do transporte coletivo de Curitiba que ocorrerá em 2025. O atual contrato tem questionamentos sérios e graves por parte do Ministério Público, da Câmara Municipal que fez CPI antes de eu ser vereador. Eu entendo que é muito sério, crítico, o papel que o próximo prefeito vai ter. A gente tem que ter um transporte que sirva os interesses da cidade. O transporte coletivo, eu acho, que tem sim que receber subsídios, tem que ser financiado com transparência, controle social para que a gente caminhe na direção de sustentabilidade. Que a gente consiga atrair mais usuários para o transporte coletivo, diminuir o número de automóveis da cidade. Mas isso tem que ser feito com transparência. O jeito Greca de governar, de gerir o transporte está longe de ter essa transparência.

BP – O próximo prefeito assume em janeiro e já em fevereiro tem reajuste dos motoristas e cobradores e da tarifa. Como administrar isso levando em conta o pouco tempo?

Goura – De fato é uma complexidade grande. A gente está falando de um serviço que é essencial para a cidade. A gente pretende trazer transparência. O máximo de controle. A população precisa que saber os custos totais e detalhados da gestão do transporte coletivo, o papel da Urbs. A gente pretende, logo no início da gestão, fazer esse trabalho com as universidades, a sociedade civil, para que haja transparência absoluta da gestão do transporte coletivo de Curitiba. A gente falar de uma caixa aberta. A gente pode imaginar em tempo real em um site divulgação com toda a transparência dos custos do transporte. O prefeito Greca tem falado que está comprando novos ônibus, renovou a frota. Isso tudo faz parte das obrigações contratuais das empresas, que já estão previstas inclusive, nas taxas que são cobradas dos usuários. Então, não é a prefeitura que está comprando novos ônibus. Curitiba tem uma situação que é quase uma distopia, a tarifa social e a tarifa técnica. E isso cria uma ilusão do qual que é o valor real, qual é o real custo do transporte coletivo. De novo, acho que a gente tem que pensar um transporte coletivo que cumpra a função social do transporte, o acesso à cidade, do que os lucros dos empresários. Os lucros das empresas são evidentemente são legítimos, mas a gente tem que ter prioritariamente a função social. Fazer com que as pessoas possam acessar a cidade.

Bem Paraná – O que senhor achou da forma com a gestão Greca lidou com a pandemia do Covid-19?

Goura – Acho que, antes de tudo, o prefeito foi hesitante. Uma hora dizia que era para fechar, outra hora para abrir. Obviamente, que isso, desalinhado com o governo federal, estadual. E a gente viu uma situação em que a população não sabia o que fazer. A gente viu, mais uma vez, a insensibilidade da prefeitura em ajudar os pequenos comércios e empresários da cidade. A gente viu com tristeza na região central de Curitiba diversos comércios fechando as suas portas. A gente viu grupos de empresários “Fechados pela vida”, mobilizados, querendo ajudar, das sugestões sobre o que devia ser feito e a prefeitura completamente insensível a essas demandas. A gente viu diversas cidades do mundo inteiro, desde Bogotá (Colômbia), Nova York (EUA) criando estruturas temporárias para que a mobilidade dos cidadãos fosse garantida com os protocolos de segurança, de saúde pública. Criando ciclovias emergenciais, espaços seguros para que as pessoas pudessem transitar, e nada foi feito em Curitiba, e não foi por falta de sugestões. Curitiba, que se diz uma cidade tão inovadora, fez apenas uma ciclovia emergencial no entorno do Mercado Municipal, que funciona nos sábados, temporariamente, sem ter uma função efetiva. Acho que foi uma gestão errática por parte do prefeito Rafael Greca. E a gente tem assistido esse desfecho trágico. Mais de 1.200 famílias que perderam seus entes. E até criou-se na cidade uma falsa ideia de que está tudo bem. De que não tem problema. Não. Estamos em pandemia e a prefeitura deveria ter feito uma melhor comunicação com a população.

BP – A atual gestão tem promovido a terceirização dos serviços de saúde. O senhor pretende manter essa política ou revê-la?

Goura – De novo a questão da transparência tem que ser o norteador da gestão pública. A questão das OSs(Organizações Sociais), eu enquanto vereador, votei contra. Porque a prefeitura estava tratando isso como se fosse uma coisa simples. Eu não sou contra, a priori, às OSs. Eu acho que a gente tem que ter controle social, transparência. E não foi isso que a prefeitura fez. O regime de urgência (para votação) que foi aplicado no projeto na ocasião. O que a gente precisa é entender o papel e a importância do SUS. O sistema público de saúde é uma conquista dos brasileiros. A gente tem que buscar uma valorização dos profissionais de saúde. Uma melhoria dos protocolos dos atendimentos dos usuários. Mas é um sistema universal e público que deve ser mantido. A atual gestão fechou unidades de saúde durante a pandemia. E a gente está vendo que, em nome de uma suposta otimização da gestão, a gente está precarizando o acesso da população, principalmente a que mais precisa desse serviço. Um outro exemplo que merece a crítica foi a desativação da maternidade do Bairro Novo, referência no parto humanizado, e cujo os atendimentos às gestantes foi interrompido para atender outros pacientes que não de Covid. E tratou isso como mais uma vez uma ação imposta de cima para baixo, sem diálogo. A gente pretende ter uma gestão mais transparente da saúde, o fortalecimento da fundação. As OSs que já estão atuando merecem um olhar mais atento.

BP – O eleitor de Curitiba tem fama de conservador. Como o senhor pretende superar essa situação de polarização que a gente vive hoje?

Goura – Eu creio que os curitibanos, aqueles que nasceram e aqueles que adotaram Curitiba como sua cidade querem uma qualidade de vida melhor. Querem uma cidade menos injusta, menos violenta, com políticas públicas efetivas e eficientes de mobilidade. Acho que todo mundo gostaria de calçadas acessíveis. As pessoas com deficiência, nós estamos falando de mais de 300 mil pessoas em Curitiba, querem acessibilidade, inclusão. A gente está falando de criar uma cidade onde os pais tenham segurança de deixar os seus filhos pedalarem pela cidade, onde os parques estejam integrados, as escolas tenham ciclofaixas que cheguem até as suas portas. Então, independente de posicionamento político eu creio que a gente quer discutir a qualidade de vida da nossa cidade. Que a gente vai além dessa imagem muito publicitária e pouco efetiva. A gente quer a cidade seja acessível a todos, com arte, cultura, com a economia crescendo e sendo fortalecida, com feiras independentes, pequeno comércio. Onde os espaços culturais floresçam por toda a cidade de forma descentralizada. Eu creio que a nossa proposta para Curitiba, e eu fui eleito vereador, deputado com os votos de pessoas que não necessariamente concordam em tudo o que eu defendo. Mas entendem que muitas das bandeiras que nós defendemos ligadas à sustentabilidade, à preservação dos rios, uma política racional dos resíduos sólidos, tudo isso diz respeito à uma melhoria da qualidade de vida. Essa é o meu mote da campanha de mostrar que Curitiba pode ser uma cidade sustentável, deve ser uma cidade novamente inovadora na agenda ambiental, de mobilidade. Mas em paralelo a gente tem que avançar muito nas políticas sociais. Na valorização da educação, da saúde pública. Nas funções sociais da prefeitura para as pessoas que mais precisam. Acho que a gente não vai ter uma cidade segura, onde a gente a sensação de segurança prevaleça, se não tiver um ciclo virtuoso de desenvolvimento. E aqui não estou falando no curto prazo. Acho que a gente tem que falar em uma visão de cinco, dez anos para que a cidade fique menos injusta, desigual. De forma alguma a gente está propondo uma utopia irrealizável. A gente está dizendo que, por exemplo, ao invés de gastar R$ 180 milhões em um subsídio pouco transparente para o transporte coletivo, o prefeito de Curitiba pode gastar R$ 35 milhões, R$ 40 milhões, e fazer 1 mil quilômetros de ciclofaixas. Esse é o valor. Isso dará a Curitiba novamente uma categoria de referência não só nacional mas mundial de mobilidade. Um status que a gente já teve e perdeu. A gente fica vivendo desse eco dos anos 70, 80, do BRT (ônibus de trânsito rápido), dos parques, mas a gente não teve uma continuidade de ações inovadoras que fizessem com que a qualidade de vida do curitibano melhorasse.

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