Cena anti-imperialista

Em 1960 tivemos uma das eleições mais ideologizadas do Brasil, um racha entre nacionalistas e cosmopolitas, isto é, entre o livre mercado e a intervenção. Havia o Iseb, Instituto Superior de Estudos Brasileiros, uma fábrica de ideologia, como se fosse o oposto da Escola Superior de Guerra, doutrina que nos condicionava geopoliticamente aos Estados Unidos da América do Norte. Pois bem, foi em meio a esse tumulto que Curitiba exibiu um dos episódios mais curiosos de nacionalismo. Estávamos na semana da Pátria e havia bem no centro da avenida Luiz Xavier um imenso balão da Coca-Cola e foi do alto do Palácio Avenida, em que morava, que o cartorário José Nociti ficou estarrecido com aquele símbolo mesclado à celebração patriótica. Do seu apartamento deu vários tiros no balão que teimosamente retornava à redondeza original. Foi criada uma atmosfera gaiatamente anti-imperialista e a questão dominante até a noite quando se criou um clima de beligerância contra o balão com enorme multidão voltada para o espetáculo: José Nociti, inconformado com a insuficiência dos tiros, trouxe dois arcos e flechas e incumbiu o boêmio Nelson Matulevicius, pintor e escultor, apelidado de Nelson Cabeleira, de dar cabo do símbolo “imperialista”. Do alto de um ônibus, que parou na esquina da Oliveira Belo, o artista dava flechadas incendiárias na propaganda do refrigerante. O público excitado a tudo, acompanhava exaltado até que foi necessária a intervenção do Corpo de Bombeiros para a retirada da suposta afronta aos valores cívicos. Alguns, poucos é verdade, tentaram até entoar o hino nacional no coroamento da imaginária afronta. Foi o dia em que Curitiba derrotou o que parecia invencível: o imperialismo ianque numa das suas formas mais sedutoras.

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