Amigo de ocasião

Gostar de observar ruas, lugares e pessoas é uma coisa quase natural em quem gosta de escrever sobre o cotidiano. Não são poucos os textos literários que falam da obsessão em observar, perscrutar. Fernando Pessoa, em seu Livro do Desassossego, fala sobre isso: “Não sei quantos terão contemplados, com o olhar que merece, uma rua deserta com gente nela. Já este modo de dizer parece querer dizer qualquer outra coisa, e efetivamente a quer dizer. Uma rua deserta não é uma onde não passa ninguém, mas uma rua onde os que passam, passam nela como se fosse deserta”. Já Clarice Lispector foi ainda mais poética ao definir sua ânsia em observar. Em Beleza Escondida afirma: “Gosto das cores, das flores, das estrelas, do verde das árvores, gosto de observar. A beleza da vida se esconde por ali, e por mais uma infinidade de lugares, basta saber, e principalmente, basta querer enxergar”. É por aí que me encaixo. Entre as linhas dessas palavras tão inspiradas para dizer que observo o que minha alma singela permite observar. E muito tenho observado.

Todo esse introito poético para falar que entre tantas belezas de lugares, pessoas e fatos, há também espaço para as observações prosaicas, quiçá banais, pelo comportamento de pessoas que eu não enumeraria como “ o meu tipo inesquecível”- lembrando a sensível coluna da velha e agradável Revista Seleções. São aquelas que chamam a atenção pela repetição do comportamento claramente voltado à amizade de ocasião. Falo do anti amigo, aquele do sorriso maledicente, portador de máscaras indecifráveis que se aproxima quando você está entre seus verdadeiros amigos e procura extrair a simpatia de todos para se enturmar. Em geral muito pouca gente nota. Só mais tarde o sujeito vai perceber que aquele “amigo”, em outros ambientes onde já está inserido, mal o cumprimenta e nem lhe guarda intimidade. Dele só se extrai um nauseabundo sorrisinho sarcástico do canto da boca.

Com o passar dos anos me deparei com muitos amigos de ocasião. Eles são em muito maior quantidade do que imaginamos e muitos passam anos convivendo com uma abjeta falsidade cotidiana até que se revelem como de fato são. Hoje, calejado pelas pedradas sofridas, costumo identificá-los mais rapidamente e os observo com certo desprezo, pois o amigo de ocasião é muito pior que o inimigo declarado de quem você pode se defender. O amigo de ocasião só serve para fazer número em encontros sociais e falar mal de você pelas costas. Ele, num jantar, nunca irá lhe comprar um alimento cozido por saber que você não come nada cru. A verdadeira amizade também se revela em pequenos agrados. Nunca mais esquecerei aquele bolinho de carne adquirido num boteco só para me agradar.

Longe dos falsos, é necessário ter a sabedoria de que a amizade é feita de pessoas que se amam, que conhecem os defeitos uma das outras, que se aquecem na hora mais escura das adversidades e mesmo com pensamentos opostos, se respeitam e se admiram. Amigos de verdade são os irmãos que escolhemos para seguir nessa estrada que machuca tanto nosso corpo e nossa alma. Ex-amigos não existem. Eis o exemplo de Camus e Sartre: Sartre escreveu em uma carta aberta: “Caro Camus, nossa amizade não foi fácil, mas vou perdê-la”, e acusou seu ex-amigo de “incompetência filosófica”. Quinze anos mais tarde, Sartre com então 70 anos, perguntado sobre sua relação com Camus já morto, em uma entrevista para a “Les Temps Modernes”, disse: Camus era “provavelmente o meu último bom amigo”. Com certeza morreram amigos. Como diria um autor que agora não lembro, a amizade é uma epifania lenta. Que venham os bons e verdadeiros amigos!

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