O transe é o barato

Enquanto países europeus anunciam novos recordes diários de contaminação do Coronavírus e entram na segunda onda, no Brasil é como se não estivéssemos numa pandemia. É como se ela nem tivesse chegado aqui, talvez barrada pelo poder da cloroquina invisível na fronteira.
O susto e o medo de março, quando a Itália vivia o colapso do sistema de saúde, ficou por lá mesmo. Conforme o vírus se espalhou por aqui, o jeito escapista de lidar com uma pandemia surgiu bem rápido, assim como a normalização das atividades, fazendo com que muitos trabalhadores não pudessem se isolar e se proteger. O capital não espera a pandemia passar. Aqui é a lógica da imunização de rebanho, pessoas com doenças pré-existentes completamente tratáveis e idade avançada, ficam para trás. A lógica da morte.
A última é o cansaço. Não dá mais para ficar em casa. Por isso, lotar praias, ruas e bares é a saída. Esquecer os cuidados básicos de utilização da máscara, álcool gel e distanciamento social é a prioridade. O importante é viver o calor quando ele aparece, postar a selfie com a legenda “era o que estava precisando” (quem não está?) e seguir com a consciência deslavada.
Os isolados convictos até julho no Paraná estavam entre 6 e 10% da população. Será que não queriam passar um sábado de calor na praia? Assim como as pessoas com comorbidades, será que não gostariam de visitar seus familiares depois de meses? E os trabalhadores que passam a semana inteira em risco para que outras pessoas bebam seu chopp, tomem seu sol e puxem seu ferro?
As 700 mortes por dia não incomodam, incomoda mesmo é assistir o colapso do sistema de saúde de outros países. Aqui os isolados são seres de outro mundo, pintados quase como os paranoicos de cenários pré-apocalípticos. É a estranheza de viver aqui. Se informar e preservar não só a vida do núcleo familiar, mas barrar a contaminação, esperar os níveis de transmissão diminuírem para aos poucos poder sair com segurança é insanidade.
O transe é o barato.

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