Filmes que nunca foram feitos

Existem projetos de filmes que diretores e produtores, por razões diversas, nunca foram finalizados e exibidos ou sequer começados. Roteiros arquivados ou também nem terminados. Um caso famoso é “Napoleão”, que Stanley Kubrick planejava filmar logo depois de “2001: uma odisseia no espaço” de 1968. Visitou diversos países na Europa em busca de locações, convidou Jack Nicholson para o papel principal, e já tinha parte do roteiro. Começou a captar recursos e um estúdio, mas o projeto ficou muito caro, o que o fez desistir e dedicar-se a “Laranja mecânica” bem menos dispendioso.

Mas outros fatores podiam impedir a realização como por exemplo o “Código de produção de Hollywood”, o Hays Office, durante o tempo de sua vigência, mais as ligas religiosas que poderiam boicotar a presença do público nos cinemas, única fonte de renda para os filmes na época. O diretor e roteirista Billy Wilder, com seus temas ousados e humor cáustico deixou de realizar muitas ideias que tinha, na maioria das vezes, antes de as colocar no papel, pois sabia que não seriam aprovadas. Por exemplo, bolou um roteiro edipiano em que mãe e filho ardem de amor um pelo outro. Decidem, para além de todos os preconceitos, viver juntos como marido e mulher. Depois de muitos anos de felicidade, a mãe revela ao filho uma verdade pavorosa: “Tenho que confessar uma coisa: durante todos esses anos eu o enganei, pois não sou sua mãe”. O filho desaba em prantos e se suicida.

Queria também fazer um filme sobre as Cruzadas com o ator Gary Grant, que detestava filmes históricos e não queria o papel. No argumento, os cavaleiros e seus vassalos tiveram que ir lutar na Terra Santa. Ficaram as mulheres fechadas em seus cintos de castidade e apenas um único homem: o serralheiro da aldeia, e tinha que ser interpretado por Grant. Enquanto Wilder negociava com a Universal, o ator morreu e ele desistiu do projeto, pois achava que só ele poderia interpretar o serralheiro. No final dos anos 40, Goldwyn, famoso produtor, propôs a Wilder fazer um grande filme, pois tinha feito um roteiro de grande sucesso para ele: “Bola de fogo” (Ball of fire), com Gary Cooper, Barbara Stanwyk, dirigido por Howard Hawks, Paramount de 1941, onde cada personagem é uma engraçadíssima caricatura. Assim que tivesse uma boa ideia era só ir a seu escritório.

Billy Wilder (1906 – 2002) sentado no fim de uma longa fileira de latas com os filmes que dirigiu, fora os muitos que roteirizou com múltiplos parceiros. Nestas latas muitas obras-primas.

Algum tempo depois Wilder apareceu no escritório de Goldwin e disse: “acho que tenho alguma coisa para o senhor. Então Wilder o adulou um pouco, dizendo ser um argumento que só poderia ser devidamente apreciado por alguém que não se preocupasse demasiadamente com o gosto do público. “Não é o caso do senhor”, prosseguiu: “Um filme sobre a vida de Njinski”. Goldwyn perguntou: “Mas quem é esse Nijinski”? Wilder pôs-se a contar que Nijinski era filho de camponeses pobres que sonhava ser um grande bailarino. E tornou-se um grande bailarino e coreógrafo, atuando em balés de grandes compositores como Stravinski e Debussy. “E a historia?” perguntou Goldwyn. Wilder contou como Diaghilev descobriu o jovem, belo e forte camponês na escola de balé. “O senhor sabe quem é Diaghilev?” perguntou Wilder. “Não faço ideia” respondeu Goldwyn. Diaghilev era o grande empresário do famoso Balé Russo, logo que viu o jovem se apaixonou por ele. Goldwyn interrompeu: “Por favor, diga mais uma vez, Diaghilev é uma mulher”? Wilder: “Não um homem”. Goldwyn : “Mas que história, dois homens duas tias, pode parar Wilder”! Wilder tentou, pediu-lhe que ouvisse mais um pouco da história, mas Goldwyn: “Quer parar com esta história imbecil”? e enxotou Wilder do seu escritório. Fico imaginando um roteiro destes nas mãos de Wilder.

Em 1960 Billy Wilder quis filmar “Um dia na ONU” com os Irmãos Marx. Não consigo imaginar o que poderia ter sido isto. Consultados a respeito, Groucho, Harpo e Chico concordaram, e Wilder escreveu um roteiro de quarenta páginas. Harpo teve um enfarte, Chico morreu em seguida e, mais um filme cancelado.

Orson Welles teve diversos projetos abandonados ou muito alterados. Vincente Minnelli, no fim do sistema de estúdios, ainda tinha grandes ideias para musicais, mas sem a infraestrutura de uma Metro, teve que desistir de todos. Enfim muitos bons diretores deixaram de realizar filmes.

Com a tecnologia de hoje, um pouco de imaginação, mais liberdade, quantos filmes poderiam ser retomados, em vez das ridículas refilmagens, sempre muito piores que os originais. Para não falar de super-heróis e super-vilões que já saturaram. Kubrick queria para seu Napoleão, uma tomada aérea sobre 75 mil soldados, e 5 mil cavalos, fora outras extravagâncias previstas no roteiro. Claro que ninguém quis bancar estes custos. Hoje ele poria talvez uns 4 mil ou menos indivíduos diante da câmera e os “efeitos especiais” multiplicaria este número por quantos ele quisesse.

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