Os estupradores, artigo do Magal

“Os estupradores” é artigo escrito por Felipe Mongruel, o Magal, candidato a vereador pelo PT.

Para você, o que é estupro? O hediondo do crime você pode perceber ao imaginar a situação, e é bom que faça este exercício para que não sobre dúvida sobre o absurdo de alguém dizer que ‘estuprou sem querer’ ou qualquer variação desta frase da moda entre os canalhas.

A sociedade brasileira foi amestrada para culpar a vítima em casos de estupros. Nos acostumamos a ouvir sobre as roupas, as palavras, as mensagens, o comportamento da vítima como se qualquer detalhe permitisse a força de um homem contra seu corpo, contra sua vontade. Como se usar uma saia curta ou decote fosse o passaporte para que lhe tomassem a carne como bem quisessem. Como se sair à noite ou se maquiar ou dançar ou beber lhes tirasse o direito da vontade ou da não-vontade.

Enquanto lê essas linhas, por favor, pense sobre o que é um estupro. Imagine o seu corpo.

O caso de Mariana Ferrer, que corre os jornais do mundo, poderia se empilhar como mais um em que o homem caminha facilmente do lugar de criminoso para o de inocente. E isso não chamaria a atenção porque é fato corriqueiro. Mas a macharada presente no julgamento do caso foi além e quis tratar de maneira bem particular a injustiça do caso. Porque para quem tem implicações morais graves, a injustiça não basta, é necessário que ela seja recriada a seu próprio modo.

Para não perder o horror das palavras do Cláudio Gastão da Rosa Filho (o advogado que não consegue se manter nos argumentos legais e precisa e gosta e faz questão e quer humilhar), pense no seu corpo e no que é um estupro. Cláudio, este homem que recebe a peso de ouro e transforma o humano em besta, a lei em bosta, conseguiu dizer a uma vítima de estupro coisas como “Peço a Deus que meu filho não encontre uma mulher que nem você / Teu showzinho você vai lá dar no Instagram depois / Tu vive disso, né, Mariana […] manipular essa história de virgem”. Levantou fotos de Mariana, contestou-as mesmo não tendo nada a ver com o caso, alterou a voz. Fez o que fazem os machões de cozinha…

Mariana, a vítima, a que foi estuprada, a que passou pelo horror de ter um homem transando com ela sem que consentisse, a que teve que fazer exame, ir à delegacia, chorar mares sem fim, ter problemas de tudo quanto é tipo depois daquela noite de horror, incluindo os caminhos que a Justiça (Justiça?) percorreu até o dia do julgamento, chorou: “Eu to implorando por respeito, nem os acusados, nem os assassinos são tratados da forma que eu tô sendo tratada, pelo amor de Deus, gente”.
Mariana, que foi estuprada, e estava diante de pessoas que deveriam assegurar seus direitos, teve que implorar por respeito.

O promotor Thiago Carriço de Oliveira, aquele que inventou a incrível tese do estupro sem intenção, pateticamente, covardemente, diante do desespero de Mariana resmungou “se você quiser se recompor aí, tomar uma água, não tem problema”. Que bom que deram o direito de Mariana tomar água!

Por fim, o galo do tribunal, o juiz Rudson Marcos, concordou com a tese do promotor sobre estupro sem intenção e afirmou que é “melhor absolver 100 culpados do que condenar um inocente”. Não, juiz, o melhor é condenar um culpado e absolver 100 inocentes. É assim que tem que ser. Este é o seu trabalho.

A Justiça brasileira vai de mal a pior. É revoltante imaginar o número de vezes que um quadro deplorável como este se repete pelos tribunais. E a partir de agora, vai poder ocupar este expediente do estupro sem intenção, da violência sem querer, da perversidade culposa ou inventar coisa ainda mais horrenda, já que este é o país em que os códigos são meramente ilustrativos. E o poder judiciário cada dia mais avaliza o estado autoritário, totalitário e de exceção.

Antes que o texto acabe, pense no que é um estupro. Se você é homem, pense no que é ser vítima de um estupro, no seu corpo passando por isso, no corpo da sua filha, sua mãe, sua irmã. Ah!, embora o trio da Justiça de Santa Catarina tenha ofuscado, o nome do estuprador de Mariana é André de Camargo Aranha.

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