Risonha e franca

A transição do jornalismo boêmio para o tido como profissional mudou cenários e atores. É verdade que a tragédia, por vezes, estava na própria redação como se deu na do jornal O Dia com o chargista e artista plástico Marcel Leite que morreu ali mesmo onde transfigurava o mundo real nos textos de jornais e revistas e também nas embalagens. A história das artes visuais está na dependência de um relato sobre ele, a amizade que teve com Orson Welles de quem ganhou um presente, um móbile de Calder. No Passeio Público, durante muito anos, figurou um outdoor lírico da laranjada Wimi: um menino flutuando numa vitória régia fazia xixi na barragem, a do próprio recanto, mais uma do Marcel.

Capas de livros e revistas registravam a sua inconfundível presença. No trabalho havia uma forte sugestão de lazer e isso fazia parte do cotidiano. Como assistíamos com algum espanto os lances da primeira diagramação do judeu argentino Benjamin Steiner no Diário do Paraná, ele um ator à procura de um palco, simulando uma apoplexia e que terminou em comédia: era uma calcinha feminina, mínima, engatada em sua garganta.

No O Estado do Paraná um articulista Sebastião de Oliveira Salles assinava Três Flagrantes que abordavam temas mundiais, estaduais e locais. Num texto polêmico chiava contra emissão de papel moeda com o título “Dinheiro não é capim”. O historiador e homem das lides do campo, Coelho Júnior, entendido que era em gramíneas em torno das quais sempre pontificava em tratados de agrostologia, replicou “Capim é dinheiro”, uma polêmica interna, algo bem ao gosto da época. Dias depois na hora de receber o vale, Coelho se surpreendeu ao abrir o envelope e nele encontrar um maço de capim, saque do gerente João Baptista de Moraes que não perdia oportunidade como essa pra manter o sarro na redação, afinal a bola quicava na frente do gol escancarado.

Deixe uma resposta