Uma bengala para outra centenária

No centenário da Academia Brasileira de Letras, um samba-enredo saudou Machado de Assis, sem citar nenhum livro do Bruxo do Cosme Velho, como o chamou Drummond, e implicitamente o romancista Jorge Amado e o poeta João Cabral de Melo Neto, ao fazer referência aos livros Dona Flor e Gabriela, do primeiro, e Morte e Vida Severina, do segundo, concluindo: “E num céu de poesias / De escritores geniais / Brilha a mulher, estrela guia / Na constelação dos imortais”.

Sim, as mulheres demoraram a entrar para algumas academias, mas já entraram brilhando, ainda que muitas prefiram ou se obriguem a frequentar outro tipo de academia, certas de que toda mulher tem medidas provisórias e de que todo homem tem medidas cautelares.

Em 2020, a Academia Catarinense de Letras também fez cem anos. Não foi tema de celebração referencial alguma, uma ausência sentida por muitos de seus integrantes. Não almejavam que a Casa fosse tema de escola de samba, mesmo porque Florianópolis não é o Rio de Janeiro, mas aguardavam algum evento à altura da grandeza do centenário. Tal ausência foi creditada à pandemia, o que é controverso.

Se os prezados leitores têm alguma dúvida do que aqui se afirma, deem uma olhada nas celebrações das efemérides nas duas guerras mundiais, na gripe espanhola e noutras desgraças, nacionais ou internacionais. Numerosos eventos, não apenas virtuais, foram realizados nesta pandemia de 2020.

Duco non ducor (Conduzo, não sou conduzido) é um velho lema a ser lembrado. Lisboa destruída pelo terremoto de 1755, o rei Dom José pergunta a seu ministro, o Marquês de Pombal: “E agora?” Ouviu em resposta: “Agora é enterrar os mortos e cuidar dos vivos”. Histórica ou lendária, a frase resume o que foi feito. Houve quem ordenasse e houve quem fizesse o que precisava ser feito.

As academias costumam ostentar a frase famosa: ad immortalitatem (para a imortalidade). A Academia das Ciências de Lisboa, fundada na noite de Natal de 1779, tem outro lema: Nisi utile est quod facimus stulta est gloria (Se não é útil o que fazemos a glória é tola).

Escrevi aqui mesmo nesta prestigiosa Revista Ideias, por inspiração e ordem do amigo Fábio Campana, e preciso repetir: “Academia, do grego academia pelo latim academia, é palavra composta de ékas, longe, e démos, povo, isto é, longe do povo, separado dele. Designou originalmente um terreno perto do cemitério de Atenas onde estava a estátua do herói Academos, guarnecida por cem oliveiras, e onde tinha sido erguido um altar à Atena, a principal deusa da cidade-estado e que por isso lhe dava o nome: Atenas. Como os deuses eram imortais, os acadêmicos passaram a ser considerados assim também, por obras que, como os atos de deuses e de heróis, fariam com que fossem lembrados eternamente”.

Mas por que Platão ensinava ali? Porque as leis impediam erguer um prédio no centro de Atenas para este fim. A saída jurídica foi comprar o terreno onde estavam as estátuas de Apolo, de Atena e de outros deuses e heróis, inclusive das musas, aos quais ele e seus discípulos renderiam cultos.

Todavia, o que pode tornar os escritores imortais são suas obras. Platão estava acompanhado de 390 filósofos, dois dos quais eram mulheres disfarçadas de homem para poder entrar: Asioteia de Filos (bonita) e Lastênia de Mantineia (feia), professora de Sócrates.

Eram quatrocentos imortais na Grécia antiga. Todos morreram, naturalmente, pois como disse a Salomão Ribas Júnior, então presidente da Academia Catarinense de Letras quanto fui empossado e repeti agora ao presidente eleito, o jornalista e escritor Moacir Pereira, é alta a taxa de mortalidade entre os imortais. E, quando tomava posse, disse o presidente que agora sai, o professor e poeta Liberato Manuel Pinheiro Neto: “Não tenho a veleidade de ser um poeta. Participo do processo ensino-aprendizagem, com meus alunos. Procuro ser um educador“. Do duplo ofício de todos nós, também me considero apenas um prosaico prosador e professor, e espero que nossos livros garantam que não foi em vão que os escrevemos.

Pois o que pode impedir que os autores sejam esquecidos na areia do tempo são seus livros, não as academias. Platão, Sócrates e poucos mais se tornaram imortais. A maioria, não. Mesmo nas academias. Enquanto isso, porém, degustemos o convívio e suas inevitáveis controvérsias, pois somos seres pensantes. (xx)

 

* Autor do romance Avante, soldados: para trás, entre dezenas de outros livros, publicados também em outros países. É professor federal aposentado e Doutor em Letras pela USP. Sua obra vem sendo relançada pela Almedina, editora que já publicou quatro livros do autor. Ver www.almedina.com.br

 

 

Deixe uma resposta