Karajan diretor de filmes

O regente Herbert von Karajan sempre foi muito atento aos progressos da tecnologia. Se preocupava sobremaneira com as suas gravações (gravou desde 1938), regravando ciclos inteiros conforme o som ia melhorando, por exemplo, com o surgimento do estereofônico no final dos anos 50. Quando vislumbrou o áudio digital, anunciou que não faria nenhuma gravação nova com a companhia que não se comprometesse a gravar digitalmente e a lançar em CD. A gravadora Deutsche Grammophon que costumava gravar com ele se arriscou e, em 1982, no Festival de Páscoa de Salzburg, Karajan e seu grande amigo da Sony, Akio Morita mais a Phillips, anunciaram o lançamento do CD. O resto já pertence à história.

Antes disso, já estava interessadíssimo por música sinfônica em forma de filme, prevendo que um dia as pessoas teriam acesso ao vídeo caseiro. Na década de 60, entrou em contato com o diretor francês Henry-Georges Clouzot (1907 – 1977), para aprender a arte cinematográfica. Este diretor tem em sua filmografia uma obra-prima: “O salário do medo” (Le salaire de la peur) com Yves Montand, Charles Vanel, de 1953. Um clássico do suspense: “As diabólicas” (Les diaboliques) com Simone Signoret, Paul Meurisse, de 1955, e muitos outros filmes importantes. Desta parceria, temos em DVD o “Requiem de Verdi”, filmado no teatro Alla Scala de Milão em 1967. Com Leontyne Price, Fiorenza Cossotto, Luciano Pavarotti, Nicolai Ghiaurov, coro e orquestra do Teatro, regente e supervisão artística de Karajan e dirigido por Clouzot, sem a presença da plateia, para total liberdade de câmeras, iluminação e técnicos. Claro, filmado em película, pois não existia tecnologia de vídeo satisfatória na época.

Karajan regendo na Filarmônica de Berlin.

Depois Karajan começou experiências com outro diretor, Hugo Niebeling, e já no início de 70 começou experiências em estúdio. Desta fase, ficou famosa um filme da 6ª sinfonia de Beethoven a “Pastoral” além da “Eróica”, 3ª e da 7ª. Com a experiência adquirida, começou a dirigir os próprios filmes, procurando com que a imagem e o som entrem num acordo completo, formando uma “imagem” da música. Começou então a fazer filmagens na sala da Filarmônica de Berlin, em concertos ao vivo.

Aconteceu, então, o lançamento do Laser Disc em dezembro de 1978, dois anos após o VHS, o videocassete. Para uso doméstico, com imagem e som de alta qualidade, para ser usado em monitores de tv e som digital com caixas acústicas colocadas nos dois lados. Aqui no Brasil não pegou, pois não foram fabricados os discos nem os aparelhos reprodutores, que eram importados e caros. Alguns aficionados compravam os discos nas importadoras, normalmente shows e concertos, que não precisavam de legendas, que eram fixas para cada país. Foi muito vendido principalmente no Japão, EUA e Europa. Aí então Karajan digitalizou seus filmes, montou-os e foram lançados no novo formato, com imagem em alta definição e som digital. Depois foram disponibilizados em DVD, lançado no Japão em 1997, e um ano depois nos EUA.

Karajan dirigindo a filmagem de um concerto em 1968.

Antes de morrer em 1989 completou mais de 40 filmes, alguns do início das suas experiências, mas preservados pelo interesse histórico. Um dos elogios que Karajan gostava de citar é o do telefonema de um homem que disse que havia acabado de ouvir coisas pela primeira vez na 5ª de Beethoven. Karajan disse: ”isso é muito bom, mas a execução que o senhor está mencionando foi filmada. O senhor não estaria querendo dizer que viu?” – “Não, quero dizer ouvi mesmo.” Este é o poder que o filme tem quando é usado apropriadamente, completou Karajan. Dizia também que desejava ter nascido 20 anos depois para ver as novidades no áudio e vídeo. Pelo menos não viu a propagação de mediocridades e imbecilidades de hoje em dia, com péssima resolução de sinais. A pior coisa são câmeras passeando pela orquestra, apenas preenchendo a imagem. Em 2015, estava assistindo um concerto de jovens músicos no Teatro Monumental em Madrid, que estava sendo televisionado pela RTVE e transmitido ao vivo pela internet. Não vi a transmissão, mas no intervalo, passeando pelo auditório, fui até uma das câmeras e vi, ao lado dela, a partitura da peça a ser executada para o operador seguir, na seleção do que focar. Com o diretor de tv também seguindo, deve ter sido, apesar de ao vivo, uma boa transmissão.

Um dos discos que me fascina é o da 2ª sinfonia de Brahms, filmado ao vivo na Filarmônica de Berlin em 1973, Karajan regendo e dirigindo depois na montagem. Vi novas cores pelo uso das tomadas de cena das violas e dos trombones em alguns dos momentos mais tranquilos da obra. E a montagem do final do último movimento, alegro com spirito, são de tirar o fôlego, com a intercalação dos tímpanos, metais e cordas.

Claro, existem outras produções primorosas, como as executadas pelo diretor e apresentador inglês Humphrey Burton, mas pela primeira vez, um intérprete musical famoso se equipou com as técnicas para dominar sua própria visualização da música que regia, com um conjunto sofisticado de opções para a apreciação da música sendo interpretada. Alguns destes vídeos podem ser encontrados no Youtube.

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