John Williams em Viena

Fato inusitado: o Musikverein, o grande auditório dourado de Viena com seus 150 anos, acústica maravilhosa, e a Filarmônica de Viena, uma das melhores orquestras do mundo, recebem um compositor e regente de música para filmes, em janeiro deste 2020, talvez a primeira vez para um concerto que não seja de música erudita consagrada. John Williams ficou honrado por ter a oportunidade de reger a orquestra de prestígio, eles ficaram claramente honrados em tê-lo, e todos que lá estiveram viveram momentos inesquecíveis.

Já na abertura, o lendário som dos metais de Viena, se faz ouvir em Flight to Neverland do filme “A volta do Capitão gancho” (Hook), de 1991, passando pela suíte de “Contatos imediatos de terceiro grau” (Close encounters of the third kind), de 1977, com as cordas maravilhosas desta orquestra, “O parque dos dinossauros” (Jurassik Park) de 1993, e por aí vai. Foi um concerto de quase 3 horas, com muitas ausências frente a um tão grande número de composições de Willians, claro com algumas que lamentei, como por exemplo a marcha de Superman de 1978, (fiquei imaginando como soaria com esta orquestra).

Anne-Sophie Mutter foi a solista de alguns números como Devils dance do filme “As bruxas de Eastwick”(The witches of Eastwick) de 1987, “A lista de Schindler” (Schindler’s list) de 1993, com solos espetaculares da violinista convidada. Claro que o programa incluiu suítes de “Star Wars”, em que a plateia, como em outros momentos, aplaudiu de pé. Finalizou o concerto com “The imperial March”, não programada por Williams mas incluída a pedido da orquestra, e o próprio Williams disse emocionado que ela nunca tinha soado melhor.

Felizmente a ocasião foi gravada e lançada pela Deutsche Grammofon, também em Blu-ray Disc, com som e imagem fantásticas (o som disponível em DTS HD, Dolby Atmos e Stereo) que assisti com alto volume, deleitando-me com uma das melhores gravações de ótima música de filmes com orquestração requintada.

Com 52 indicações ao Oscar, ganhou 5, John Williams detém o recorde do maior número por uma pessoa viva. Também compôs mais de 100 peças de concerto, além do número impressionante de trilhas sonoras, de todos os gêneros, sempre orquestrais, pois seu instrumento é a orquestra sinfônica de grandes proporções, e sempre se manteve fiel a ela. Além disso é grande maestro e ótimo pianista, instrumento que usa para compor.

Como maestro, trabalhou nos estúdios de Hollywood desde muito jovem, regendo suas próprias trilhas, muitas com a Sinfônica de Londres. Quando Arthur Fiedler, lendário regente da orquestra Boston Pops faleceu em 1979, ele foi convidado a assumir o posto, e além dos inúmeros concertos, gravou discos com temas da Broadway, homenagens a Fred Astaire, Duke Ellington, e, claro, músicas de filmes. Sempre declara sua admiração e influência dos grandes compositores do cinema, notadamente Erich Wolfgang Korngold, (1897 – 1957), já famoso na Áustria (Mahler o chamou de gênio), quando foi para Hollywood em 1934, e musicou muitas produções da Warner Bros, compondo música para filmes de Errol Flynn, Bette Davis, ajustando a música europeia de qualidade ao novo veículo, o cinema, sendo um dos compositores mais bem pagos da época. Alguns críticos colocam a música de “Guerra nas estrelas” (Star Wars), de 1977 como a melhor trilha de cinema até hoje, cuja fanfarra é influenciada pelas trilhas de filmes capa-e-espada de Korngold, o que não tira o mérito dos trabalhos de Williams. Apesar da música de filmes não pertencer ao repertório da Orquestra Filarmônica de Viena, esta esteve magnífica em todas as suas seções, especialmente as cordas e metais, o que levou o maestro dizer à plateia como foi maravilhoso para ele ouvir sua música sem a distração de um filme, nesta ocasião especial.

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