O que se diz à sombra – Deonísio da Silva

O catarinense Péricles Prade é, sobretudo, poeta, mas frequentemente irrompe em outros gêneros, como acaba de fazer com Colônia de Sombras (Rafael Copetti Editor, 2020), pequenino grande livro de narrativas curtas, gênero pelo qual a humanidade tem insopitável admiração. Poeta imaginoso e hábil narrador, mescla os dois gêneros, tornando-os ainda mais breves, destacando-se entre poetas de versos parecidos com narrativas curtas: em seu estilo, verso e prosa vêm realmente semelhando sombras.

“Poesia também é ficção”, diz ele, fascinado por histórias de crimes, seja para ler os textos alheios, seja para criar os de sua própria lavra. E para 2021 já tem pronto outro original: Hálito de Búfala , narrativas certamente originais, como antecipam amostras confidenciadas.

Colônia de Sombras traz ainda criativas ilustrações de Juliana Hoffmann e tem posfácio de Dirce Waltrick do Amarante, que já traduziu para o português James Joyce, Getrude Stein e Leonora Carrington, e é autora da peça Minha pequena Irlanda, publicada também em inglês.

O Brasil é este celeiro de bons escritores por todos os lugares. Aliás, a maioria sem público por dois grandes motivos referenciais: o país, não só continua analfabeto, como prossegue governado por políticos que raramente demonstram apreço por autores e livros. E dentre nossos editores também são raros os que passaram da fase pré-capitalista.

Para piorar as coisas, durante os últimos decênios, principalmente nos dois últimos, contentaram-se com vendas governamentais e megalivrarias. Ora, não abandonaram impunemente os leitores. Quem sustenta a literatura de qualidade em todo o mundo, não apenas no Brasil, são as pequenas livrarias, com atendentes, às vezes os próprios proprietários, que até avisam os fregueses dos novos livros merecedores de ser lidos, à margem de imposições nefastas e indesculpáveis ocultamentos da mídia.

O que há de novo no pequeno livro de Péricles Prade? São tramas que lembram a inusitada clarividência à lá Jorge Luís Borges e alguns célebres parágrafos de Emanuel Swedenborg. Com gosto de minicontos, descobrem-se verdadeiras frases-contos em breves relatos, como em Pequeno Exército de Instrumentos Musicais, com seu inesquecível Capitão Stradivarius, onde lá pelas tantas, como em pepita oculta, econtra-se: “A dança da vitória, com a participação do traidor, perdurou até a primavera”.

O feito de reduzir a breve narrativa a apenas uma sentença encontra exemplos em poucos autores contemporâneos, de que é exemplo, aliás, seu vizinho regional, o poeta e romancista paranaense Fábio Campana, outro expoente ousado neste terreno.
Péricles Prade tem amor à concisão sem olvidar a inevitável transcendência, tão bem expressa nas tramas insólitas, e o esmero da frase: polida, bem ritmada, objetiva, audaz. O atrevimento nos temas é desconcertante e delicioso.

Lembra Borges tambémVulva lunária, em que pontificam personagens conhecidos, como o “vaidoso erudito El-Enraub e o sábio Priap-Que, oriundo da agressiva Macadêmica, famoso por jamais ter aprovado uma tese”. A abertura de Gênios falantes evoca o doce encanto de antigas fábulas: “Sei perfeitamente: na atual fase do desenvolvimento tecnológico, é normal determinados objetos falarem. Mesmo admitindo essa grande conquista, fico aborrecido com o modo como alguns deles se comportam”.

Péricles Prade ultrapassa as habituais fronteiras de narrativas curtas e, em vez do veneno da visão excessivamente minimalista do mundo, percorre um caminho original: vê a árvore, a folha, o fruto, o incidente, mas não se esquece da floresta urbana e das outras entidades que a habitam. E o faz combatendo certa verborragia de alguns autores que, conquanto de qualidade, não têm seu poder de concisão e não sabem como evitá-la. Ele sabe: fica sempre no essencial.

Colônia de Sombras trilha vereda fascinante da arte de narrar: é possível dizer mais com muito menos palavras. E o encanto de sua nova invenção traz o tempero do surrealimo.

Escritor e professor, Deonísio da Silva é Doutor em Letras pela USP e integra a Academia das Ciências de Lisboa. Apresenta coluna semana na Bandnews FM há dez anos consecutivos.

Deixe uma resposta