A música de filmes

Noite de entrega do Oscar, Los Angeles, 30 de março de 1955. Anunciado o nome do ganhador da melhor trilha sonora original: Dimitri Tiomkin (1894 – 1979) do filme “Um fio de esperança” (The high and the mighty). Produção Warner de 1954, com John Wayne, Claire Trevor, Laraine Day, direção de Willian A. Wellman. A canção-tema chegou ao topo das paradas. O compositor sobe ao palco e com a estatueta dourada nas mãos, começa o seu discurso: “Senhoras e senhores, tendo trabalhado nesta cidade por 25 anos, gostaria de enumerar alguns fatores que contribuíram para o meu sucesso e acrescentaram qualidade a este lugar. Quero agradecer a Johannes Brahms, Johann e Richard Strauss, Richard Wagner, Beethoven, Rimsky-Korsakov…”Tiomkin é interrompido por sonora gargalhada da plateia. Sua intenção não era fazer graça mas prestar um tributo aos grandes do passado. Sem dúvidas que já na época dos filmes mudos, e depois através dos grandes compositores europeus que aportaram em Hollywood, o cinema sempre bebeu na fonte dos grandes mestres. Não estamos falando de filmes que contam a vida de compositores, como “Amadeus” produção de 1984 sobre Mozart. O vienense Max Steiner (1888 – 1971) é considerado o pai da música do cinema, pois chegou a Hollywood em 1929, com a revolução do cinema falado. João Máximo, dedica um capítulo inteiro a ele, na sua publicação em dois volumes “A música do cinema”. Em 36 anos de carreira musicou de tudo, inclusive a primeira versão de “King Kong” de 1933, produção da RKO, com Fay Wray, Robert Armstrog, direção de Merian C. Cooper, efeitos especiais criados por Willis O’Brien. A música de Steiner, de alto nível, demonstrou que qualquer tipo de filme, mesmo este em que um gigantesco macaco apaixonado por delicada heroína, pode inspirar música de altíssima qualidade, de acordes pouco usuais, dissonantes a bonitas melodias. (Alguns sites e pessoas já teimaram que esta versão do King Kong, que considero a melhor, é muda! O que aquela mulher grita nas mãos do macaco…).  Corroborando o discurso de Tiomkin, que era ucraniano, criado em São Petersburgo, Steiner acreditava que se Wagner tivesse vivido nessa época, teria sido um compositor para cinema. É de Steiner, trabalhando em grande pressão, a trilha sonora de “E o vento levou” (Gone with the Wind), com o famoso “Tema de Tara” a mansão dos O’Hara, abrindo e fechando o filme. Musicou mais de cem filmes.

Erich Korngold (1897 – 1957) foi para a terra do cinema em 1934, vindo também da Áustria. Foi contratado pela Warner, musicando inicialmente “Capitão Blood” (Capitain Blood) de 1935, com Errol Flynn e Olivia de Havilland com direção de Michel Curtiz. Foi um dos mais bem pagos compositores de Hollywood. Alemães, poloneses, enfim muitos outros do outro lado do atlântico aportaram em Los Angeles, inclusive eruditos que não compuseram para o cinema, como Stravinski, Rachmaninov, Schoenberg, fugindo de revoluções e ou guerras. 

Claro que muitos compositores americanos também criaram grande música de filmes, como Bernard Herrmann (1911 -1975), mais conhecido por suas trilhas para Hitchcock, principalmente na da antológica cena do chuveiro em “Psicose” (Psycho) de 1960. Também fez a música para “Cidadão Kane” (Citizen Kane) de Orson Welles, 1941, e seu filme seguinte “Soberba” (The magnificente Ambersons) de 1942. Aaron Copland (1900 – 1990) criou o som orquestral do oeste americano, seguido por Elmer Bernstein e tantos outros. 

Henry Mancini (1924 – 1994) criador de trilhas memoráveis, e também de melodias de sucesso que se distinguiram dos filmes para as quais foram compostas, vendeu grande número de discos, inclusive gravando músicas de compositores que admirava, especialmente os italianos Morricone e Rota. 

Pouquíssimos exemplos para mostrar de onde vem a música de John Williams (1932 -) que como escreveu João Máximo, ele é de fato músico inspirado, tecnicamente perfeito, culto, amante da linguagem orquestral, e sempre fiel a ela, que usou tudo isso para devolver à música dos filmes sua grandeza sinfônica da era de ouro do cinema. Começou em televisão no final dos anos 50, e foi homenageado ano passado em Viena, regendo sua música com uma das melhores orquestras do mundo. Ver artigo anterior.     

Foto: Max Steiner regendo em estúdio.

     

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