SABOR DE MORANGO

SABOR DE MORANGO

por Deonísio da Silva.    

Conto inédito, especial para Revista Ideias .  

A igreja de minha adolescência profunda era a sede ou matriz da Paróquia Santa Teresinha, em Jacinto Machado (SC). Ali fui coroinha.

Em certo domingo, depois da missa, um ciclista foi atropelado por um caminhão. Foi um auê danado. Ainda paramentados, o padre e os coroinhas, Elói Semprebom e eu, os três também fomos ver o que tinha acontecido, pois era grande a perturbação no primeiro acidente de trânsito com vítimas humanas na localidade.

Cachorros e galinhas já tinham morrido ou sido machucados, mas, gente, não, nunca até então. Estendido na rua de cascalho, em meio ao sangue e à dor, “gemente et flente”, como em famosa oração litúrgica que rezávamos em latim, o rapaz atropelado pensou que sua hora tinha chegado e aquela fosse a extrema-unção.

Sobreviveu manco e torto, o doutor Carlos Saboia fez as devidas cirurgias. Feliz da vida, apesar do susto e do trauma, ele casou-se com u’a moça tão linda como Nossa Senhora das Dores, “clemens, pia, santissima”, como na mesma prece, que passou a amar e cuidar do jovem. Ele nunca mais andou de bicicleta.

Mas ela, sim, com uma Monark, sem varão, especial para mulheres, freiras e padres. Vestindo saia vermelha apertada, boca vermelha de um batom lindo e unhas pintadas da mesma fascinante cor, ia confessar-se fora do horário com o padre  substituto do pároco. Ela ia todo dia nesse interstício, deveria ter muitos pecados a contar ou gostava de repeti-los.

Eu era menino estudioso, sempre, e obediente, quase sempre, e morava na Casa Paroquial para ser preparado para o pré-seminário, no Educandário São Joaquim, em São Ludgero (SC) onde seria preparado para o Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Tubarão (SC) cujos padres me preparariam para cursar Filosofia e Teologia, em Vimão (RS). Se tudo desse certo, depois de 18 anos de estudo, por volta de 26 de idade, eu seria considerado apto para o sacerdócio e, fazendo os votos de castidade e de obediência, seria ordenado “sacerdos in aeternum secundum ordinem Melquisedec” (sacerdote, para sempre, segundo a ordem de Melquisedec) , pois é um rito radicado no Antigo Testamento que o cristianismo, dileto filho do judaísmo, aproveitou.

Quando a moça vinha confessar-se em seu escritório, o padre interrompia meus estudos na mesa em frente à dele e me mandava colher moranguinhos no pomar atrás da igreja. E eu não gostava dessas interrupções.

Um dia voltei muito depressa, a mulher ainda estava no escritório do padre, que me mandou colher mais. Fui de novo. Ao voltar com uma pequena bacia cheia de moranguinhos, ela tinha ido embora, e o padre disse que eu tinha colhido demais daquela vez,  tinha acabado com os moranguinhos.

Nunca soube a quantidade de moranguinhos a colher, mas uma coisa aprendi com Teresinha Vecchi, irmã do padre Carlos Vecchi, ambos de Laguna (SC), ela era xará da padroeira, empregada doméstica de todo serviço e espécie de mordoma, e trabalhou a vida inteira com o padre Herval Fontanella, eterno vigário ou pároco de Jacinto Machado (SC): “esse padre coadjutor vai ficar pouco tempo, só até o padre Herval voltar, ele é diferente, quando atende no escritório, a gente não pode entrar lá, nem que seja para pegar alguma coisa que esqueceu”.

Esqueci muito e talvez tenha omitido ou acrescentado algo a essas lembranças. Os moranguinhos tinham diversos sabores: se mais para o vermelho, como os batons, se mais para o verde, como eu ficara quando assustado pelos tapas na cara recebidos por Artur, sobrinho do padre Herval, que ficara uns dias com o tio e esquecera de apagar as velas da igreja em certa noite, podendo ter causado um incêndio que destruiria a igreja inteira, como já tinha ocorrido com o seminário que estavam reconstruindo em São Ludgero, mas que podia ter sido incendiado de propósito por um político que brigara com o bispo, Dom Anselmo Pietrula.

Outros incêndios tomaram conta do menino, em grandes ou pequenas labaredas, às vezes ocultos em brasas como nesta outra idade, quando brotam tantas lembranças, e eu cumpro o destino que me coube, segundo o vaticínio do monsenhor Bernardo Peters ao me entregar os documentos do que estudei, alguns anos depois de desligado: “Gloria in excelsis Deo, tu non eris sacerdos in aeternum secundum ordinem Melquisedec, sed bonus puer es”. (Glória a Deus, tu não serás nunca sacerdote, mas serás um eterno bom guri).

Talvez os honrados sacerdotes preceptores tenham insistido pouco, piedosamente ou não, para que o menino fosse o que lhe estava destinado, mas de algum modo ele tomou caminhos de domínio conexo ao tornar-se escritor e professor. As tentações sempre foram muitas, para os discípulos e para os mestres.

Àquele antigo menino coube viver para escrever estas lembranças e ensinar a outros o gosto de ler boas prosas que muito admira e degusta, diante das quais considera as suas apenas um pequeno pedaço de sombra do que elas têm sido para ele.

Esse menino em mim jamais morrerá, nem mesmo depois de “defunctus” (que significa pronto em latim), pois descerá como barro velho e subirá como barro novo, como ouvi outro dia em vernáculo numa igreja, nesses tempos em que os antigos ritos e o latim foram abolidos para que, soberano, mas sem que ainda se tenha educado o soberano, triunfasse outra vez. Como sempre, o povo, por sua vez, evita e dificulta o caminho novo dos meninos, sejam eles filhos, netos, alunos ou discípulos. O povo precisa ser conduzido. O povo não é “duco” (eu conduzo), o povo é “ducor” (eu sou conduzido).

É grande a diferença entre alunos e discípulos. Dos primeiros, o nome deles é legião ou povo, eles estudam e leem por necessidade. Dos outros, o nome deles é outro, existem em pequeno número, cada vez menor, e aprenderam a degustar as complexas sutilezas do tempo que lhes foi dado viver.

E, por isso, são para os outros motivo de perplexidade ou desprezo. Podem até saborear moranguinhos, mas se repolho, alface ou capim, daria no mesmo. Certos gostos, sabores e saberes lhes são estranhos.

Quanto àquele menino, ele um dia aprendeu com o preceptor que lhe apresentou Terêncio, o Africano, que “homo sum, humani nihil a me alienum puto” (sou homem, nada do que é humano me é estranho).

Então, sua vida mudou para sempre, e tudo lhe desperta o gosto de invocar o memorial da vida, uma tarefa iniciada quando os gregos, tendo aprendido o alfabeto com os fenícios, começaram a registrar as histórias ouvidas para que fossem lidas por outros, sem os tomentos da pressa e do tempo.

Então, sua vida mudou para sempre, pois “ars longa, vita brevis” (a arte é longa, a vida é breve). Nossa vida é longa quando comparada à vida breve das borboletas,  que vivem poucos dias, e curta quando comprada à das tartarugas, que vivem quase dois séculos e vieram dos infernos, e à dos autores, que vivem eternamente por causa da escrita, e são anjos caídos que pretendem voltar.

* Escritor e professor. Esta narrativa integra livro inédito que celebra os trinta anos do romance “Avante, soldados: para trás” (Prêmio Internacional Casa de las Américas) e os dez de “Stefan Zweig deve morrer”, já publicados também em outros países. 

Crédito da foto: Enio Frassetto

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