Ele voltou

A militância do PT se assanha, se veste, sai às ruas. Lula está de volta, elegível, com seus direitos políticos recuperados. É bem verdade que ainda pode haver surpresas negativas no Supremo Tribunal Federal.

A política é um deserto de profetas. Foi impressionante e totalmente inesperada a reviravolta do quadro nacional neste mês de março, confirmando uma vez mais como é difícil, a rigor impossível, fazer previsões em matéria política. A reviravolta, como se sabe, foi produzida por três acontecimentos encadeados.

Primeiro, a decisão do ministro Edson Fachin de anular todas as sentenças contra o ex-presidente Lula. Segundo, a decisão do ministro Gilmar Mendes de colocar em votação à suspeição de Moro (derrotando a pretensão de Fachin de declarar a questão superada).

E, terceiro, o discurso extraordinário do ex-presidente, que demonstrou sua quase inacreditável capacidade de se expressar e argumentar, com força e sutileza ao mesmo tempo. Reafirmou posições políticas e realizações do seu governo, mas fez acenos significativos a seus adversários. Mostrou a todos que está em plena forma. O leitor pode até não gostar de Lula, não votar nele, mas há de reconhecer que foi um discurso de estadista.

Houve recurso da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra a decisão de Fachin. E a votação da suspeição de Moro foi interrompida por um pedido de vistas do ministro Nunes Marques, indicado por Bolsonaro. Em matéria jurídica, as previsões também são precárias – sobretudo quando as questões a serem decididas têm vastas implicações políticas. Mas, até onde posso enxergar, a reversão do quadro no STF parece improvável. Criou-se, na verdade, um fato político consumado, com a repercussão da decisão de Fachin no País e no exterior. E o pronunciamento de Lula terminou de consumar o fato. Como notou importante liderança do PT, a pasta saiu do tubo.

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Paro e releio o que escrevi. Estou sendo otimista demais? Os anos recentes têm sido duríssimos para o Brasil. Há muito tempo não tínhamos tantas notícias inesperadas e favoráveis. Além disso, a grave crise atual, com a pandemia fora de controle em grande parte do território nacional, só nos torna ainda mais predispostos a receber com alegria talvez excessiva a reviravolta ocorrida no campo político.

Mesmo com essas ressalvas, acredito que temos, sim, motivos para comemorar. O recurso da PGR não deve prosperar no plenário do STF. Cabe inclusive questionar, alertam especialistas, se a apreciação desse recurso cabe mesmo ao plenário, como sustenta Fachin, ou à segunda turma do STF, onde a tendência a confirmar a decisão é mais clara. E a suspeição de Moro parece irreversível, depois de tudo que veio à tona sobre seu comportamento enquanto juiz das acusações contra Lula. A sua parcialidade ficou escancarada.

Uma especulação ligeiramente ridícula, feita por alguns analistas políticos e jornalistas, é a de que Bolsonaro teria ficado satisfeito de poder polarizar com Lula. Não faz sentido. Com Lula fora do páreo, as chances de reeleição do atual presidente eram maiores. A direita tradicional ainda não encontrou candidato forte. E a centro-esquerda não tem ninguém com a força do ex-presidente.

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