O Brasil dos esquecidos: sem dinheiro, sem comida, sem vacina

A família de Luzia Garcia Silva, 22 anos, é composta por ela, seu marido, João Guilherme Souza, 29, e seus cunhados André, 19, Felipe, 9, Leonardo, 6, e Carlos Souza, 2. Os dois irmãos maiores de idade têm trabalhos temporários na construção civil e ajudam Luzia na reciclagem. A média mensal da família é de R$ 700 para dividir entre os seis integrantes. Cada um tem cerca de R$ 2,50 para passar o dia. “Não dá para fazer nada, mas tem gente pior aqui na vila”, afirma Luzia, moradora da ocupação 29 de Outubro, no bairro Caximba, em Curitiba. De matéria publicada no jornal A Voz da Favela, Rio de Janeiro.

A realidade da família de Luzia não é raridade no Paraná, de acordo com o Estudo Síntese de Indicadores Sociais – SIS e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – IBGE, cerca de 306 mil pessoas vivem na extrema pobreza, ou seja, possuem uma renda mensal inferior a R$ 145,00. Ainda de acordo com os estudos divulgados nas primeiras semanas de novembro, em 2013 eram 163 mil pessoas vivendo nessa situação em todo o Estado, o que significa um crescimento de 87,3% nos últimos cinco anos.

São pouco mais de oito horas da manhã, faz 26 graus à sombra, e Andreia Venâncio já percorreu cinco vezes o caminho que separa sua casa da caixa d’água comunitária onde enche os baldes para limpar, dar banho nos cinco filhos, entre cinco e 16 anos, e cozinhar a pouca comida que lhe resta. A mulher de 37 anos caminha inclinada para a direita, equilibrando o peso dos 10 litros de água que carrega. Até o anoitecer, ela fará esse trajeto inúmeras vezes, vezes demais para contar exatamente quantas são. Na Ocupação Esperança, em Osasco, a quarenta minutos em carro do centro de São Paulo, a água é um bem escasso. “Estamos há mais de um mês sem água em casa, passo os dias carregando baldes”, conta ela, que, como a maioria dos mais de mil moradores da ocupação, depende quase exclusivamente de benefícios governamentais para sobreviver.

Andreia recebe 510 reais do programa Bolsa Família e, até dezembro, contava com o auxílio emergencial, criado pelo Governo durante a pandemia, no valor de 600 reais. Com o corte deste último, em dezembro, o que já era difícil ficou ainda mais complicado. “Meu marido ainda faz bicos como pintor, mas, justamente no ano de pandemia, os alimentos ficaram mais caros, não dá mais para comprar carne. Carne é luxo! Até o preço do ovo, que era mais barato e que a gente sempre comia, aumentou”, lamenta, na porta de casa, diante das quatro vizinhas com quem comparte uma viela. Todas assentem com a cabeça e fazem coro às suas queixas. “Falta até arroz e feijão. A gente vai se virando, pede aos vizinhos… E tem dias que, em vez de fazer arroz com feijão, fazemos só um macarrão e farofa”, acrescenta. No dia 18 de março, o presidente Jair Bolsonaro assinou a medida provisória com as regras para a nova rodada desse benefício, que constará de quatro parcelas, pagas a partir de abril a 45,6 milhões de pessoas ―22,6 milhões a menos do que as contempladas em 2020—. Elas só receberão, no entanto, entre 150 e 375 reais, a depender da composição familiar.

Andreia é uma dos mais de 116,8 milhões de brasileiros que conviveram com algum grau de insegurança alimentar nos últimos três meses de 2020, uma situação que se repete em 55% dos domicílios do país, de acordo com o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no contexto da pandemia de covid-19, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN). O mesmo informe aponta que 9% dos brasileiros vivenciaram, no ano passado, insegurança alimentar grave. Quer dizer, 19 milhões de brasileiros passaram fome, um retrocesso aos níveis de 2004, quase um ano após o lançamento do programa Fome Zero.

Apesar de tudo, a situação de Andreia ainda não é a pior encontrada na Ocupação Esperança. A casa dela é uma das poucas construídas com alvenaria no terreno sobre o morro de 48.000 metros quadrados que foi ocupado por 500 famílias em 2013, mas que ainda não aparece sequer nos mapas dos mais avançados satélites. Hoje, em cada lote de terra vivem até três ou quatro famílias que dividem barracos de madeira e tapume. Sem reconhecimento da Prefeitura de Osasco, em algumas casas ainda chega —lenta e esparsamente— água da Sabesp, mas a maior parte da comunidade depende da caixa d’água de 20.000 litros (que nunca fica cheia por completo) comprada com o dinheiro de todos, para se abastecer. É para lá que peregrinam, dia e noite, mulheres e crianças com seus baldes sedentos.

E se falta água, falta quase tudo. “Todo mundo na comunidade sobrevivia de bico, quase ninguém tem emprego formal, com carteira assinada. Com a pandemia, muita gente ficou desempregada e passou a depender do auxílio. A gente achava que a pandemia pelo menos não seria tão forte este ano, que haveria vacinas para todos e poderíamos voltar para nossas rotinas, mas isso não aconteceu”, relata Maura Lopes, de 49 anos, uma das lideranças da Ocupação Esperança, no espaço antes destinado ao pequeno bar que mantinha e que hoje virou cozinha da casa onde vive com o marido e três filhos.

É ela quem organiza as poucas cestas básicas que chegam como doação para os moradores —café, açúcar, arroz, lata de óleo e feijão— e as distribui, uma tarefa nada fácil. “Como selecionar, entre mais de 500 famílias, para quem vamos dar 30 cestas básicas? Tentamos priorizar as mães solo, que não têm trabalho, e só contam com essa ajuda. É muito triste ver uma mãe de família descer o morro para pedir pelo menos um pacote de arroz para dar de comer aos filhos”, lamenta a maranhense de estatura mediana, porte forte, cabelos cacheados tingidos de acaju e um longo sorriso que se adivinha mesmo por debaixo da máscara e que surge quando fala da solidariedade comunitária.

Agora as cestas básicas estão minguando, e os moradores sobrevivem com a ajuda um do outro. Quem tem um pouco de arroz, troca por um pouco de feijão. Quem tem um pouco mais de água, enche um balde para quem precisa. “É nós por nós”, resume Maura, com o barulho ao fundo de uma panela elétrica onde cozinha feijão. Seu botijão de gás acabou há três dias e ela ainda não pode comprar outro. A líder da ocupação teve covid-19 no ano passado e se infectou novamente no início de março. Ela, que fazia bicos de passadeira na lavanderia onde o marido trabalhava, viu-se doente e desempregada. “Meu filho mais velho [de 21 anos, que trabalha em uma empresa de T.I.] teve que se tornar o homem da casa. Ele segurou as pontas quando todos ficamos desempregados”, relata, enquanto guia a reportagem pela comunidade —uma subida íngreme entre chão de terra e pedregulhos, mas com vista privilegiada de toda São Paulo.

A líder comunitária só para ao desviar-se de um pequeno córrego de esgoto formado por um cano que quebrou e espalhou excrementos pelas vielas, um odor que impregna o ar, mas não impede que as pessoas e seus baldes continuem saindo de casa rumo à caixa d’água. Se aproxima a hora do almoço e é preciso cozinhar. Mas o quê? “Com esse valor de 150 reais de auxílio não dá para sobreviver, a gente vai morrer de fome”, lamenta Marinalva Souza, Naná, como prefere ser chamada, de 49 anos, moradora da ocupação. “Porque um pacote de cinco quilos de arroz está 40 reais, uma lata de óleo custa 10, uma bandeja de ovos que você comprava por 6 reais custa 14 ou 15 reais agora”, acrescenta, enquanto tosse, sentada em frente ao barraco que divide com o marido, demitido da vidraçaria em que trabalhava logo no início da pandemia no Brasil.

Naná, que lavava roupa para as mães da comunidade que trabalhavam fora como diaristas, também ficou sem ganha-pão. “Não recebia muito, mas dava para sobreviver. Agora estou sem renda nenhuma, porque essas mães também estão sem trabalho. Vivemos das doações da associação de moradores, ainda resta um pouco de arroz”, conta.

Com seis filhos adultos que vivem longe, Naná é uma espécie de mãe de todos na Ocupação Esperança. Onde a saúde não chega, é ela quem receita chá de sabugueiro —árvore que fica perto de sua casa— para tratar a asma e a tosse de crianças e adultos. “Esse sabugueiro tem sido a salvação do povo daqui”, diz ela, que também não hesita em encher garrafas de refrigerante com água de sua caixa pequena para dar às pessoas que batem à sua porta. Naná só destina rancor aos governantes. “Só não tem dinheiro para o povo pobre, trabalhador. Enquanto eles querem pagar 150 reais de auxílio, estão aí comprando mansões de seis milhões de reais”, diz em referência ao imóvel adquirido pelo senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, investigado por lavagem de dinheiro.

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