Extroversão pode ser extorsão

Extroversão pode ser extorsão.

Marcio Renato dos Santos.

Piada não tem necessariamente relação com humor.

A tese, mais do que conhecida, é obsessão da Aninha. A
engenheira química não ri de piada. As piadas, em geral,
ela e você sabem, tentam dissimular racismo, misoginia,
discriminações, tantos preconceitos.

A curitibana tem convicção de que humor é outra coisa. É,
entre possibilidades, visão de mundo, crítica. Ela gosta de
comentar que pode ter mais humor em um casmurro
resmungando do que nesses sujeitos que, antes do início
da pandemia, pretendiam entreter plateias em clubes de
comédia, churrascos e encontros em que ingerir álcool era
obrigatório.

Se o sujeito gosta de contar, conta e ri da própria piada,
neste caso, Aninha destaca, ele merece detenção sem
julgamento.

As cinco, seis amigas que estão no Zoom, cada uma em
sua casa, bebendo vinho, todas riem – Aninha continua
sem mostrar os dentes, talvez irritada ou segurando o riso.

Verônica ri, aplaude, diz que a tese é perfeita e pede
licença para acrescentar um detalhe. Para ela, todo
extrovertido pode ser um mal-intencionado e, mais que
tudo, inconveniente se contar piadas. Contadores de piada,
define, são extroversão e chatice. Há quem goste dos tipos,
admite, e Alice ri. Mas, Verônica continua o discurso, o
extrovertido piadista revela-se, quase sem exceção, um
fardo indigesto.

Giselle diz é isso mesmo, as amigas dão risada, a Nanda
comenta que Verônica sabe tudo, e a Alice avisa que vai
falar.

Vocês sabem que lamentavelmente conheço um, dois
extrovertidos, ou mais. Em geral extrovertidos são
superestimados, supostamente promissores, acham que
vencem o jogo antes de entrarem em cena, não se
esforçam, nem estudam e tornam-se losers.

Como tem losers, vocês não acham?, pergunta Nanda.

Alice sorri e diz que parece ter aumentado a quantidade de
losers. E, Alice continua falando, gostaria de citar um
sujeito que vocês conhecem, o Dana.

Quem não conhece a figura?, pergunta Alice.

Elas começam a falar, não é possível ouvir o que todas
dizem, e Alice comenta que o Dana é um exemplo do
extrovertido, supostamente promissor, autoconfiante,
desconcentrado para ler, ver filme e outros conteúdos que
ampliam o repertório.

Sabem como o Dana está?, Alice pergunta.

Está bem, comenta Flávia, acrescentando que ele dá
palestras e aulas on-line.

Está uma baleia, diz Alice.

Não?!, Giselle reage.

Baleia?, perguntam duas ou três amigas.

É, e na verdade, Alice ressalta, o Dana não está tão bem
assim. Ele é, ela afirma, um desses picaretas que
pretendem motivar os outros.

O quê? O Dana é coach?, pergunta Lívia, que ainda
exclama: quem diria, hein?

Alice pergunta: lembram do Dana há quinze anos?

Não há resposta, e Alice observa que não foi só o Dana
que, em sua avaliação, piorou. De acordo com ela, o
Cabraiada, o Tui e o Marajó também tornaram-se
contadores de piada, malas-losers. Não tão gordos como o
Dana, pondera, mas igualmente chatos.

As amigas, cinco ou seis, e os mais de dois milhões da
cidade não sabem, mas um apagão vai deixar quase todos
sem luz por horas. O encontro pelo Zoom, para elas, foi
interrompido, Aninha não disse, e as amigas não precisam
saber, que a conversa revelou questões que ela, em
parceria com uma cientista social, vai desenvolver em um
trabalho acadêmico.

Elas pretendem analisar relações químicas, incluindo
inevitáveis disfunções, e o inadequado e disfuncional
comportamento de quase todos os extrovertidos,
especialmente os que contam piada, as supostamente
engraçadas e também as sem graça.

Ilustração: Vitor Mann.

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