UM PONTO DE INTERROGAÇÃO

  Péricles Prade (*)

                    Em 23 de fevereiro de 1942, no Rio de Janeiro (Petrópolis, rua Gonçalves Dias, 34), Stefan Zweig, conceituado escritor austríaco, e Charlotte Elizabeth Altmann (Lotte) , sua esposa, foram encontrados mortos no bangalô onde, refugiados, moravam desde 18 de abril de 1938. A polícia local, com notável e questionável rapidez, atestou que se tratava de suicídio duplo.

  O romancista Deonísio da Silva (DS), a exemplo de Jacob Pinheiro Goldberg, desconfiou dessa informação oficial, devido à proibição de autópsia, à incapacidade de uma simples droga para ratos (Adalina e não Veronal) matar humanos e à existência de duas versões sobre a declaração encontrada, além de outros detalhes comprometedores. Na verdade, teria havido assassinato, sendo responsável o Terceiro Reich alemão, que considerava Stefan Zweig (SZ) feroz inimigo do regime comandado por Adolf Hitler, a ponto de seus livros serem queimados em praça pública.

    Inclinado à ocorrência dessa real possibilidade, o ficcionista premiado pela Casa de las Américas (1992) pesquisou com seriedade todos os fatos relacionados ao falecimento do casal. Finda a pesquisa, escreveu o romance Stefan Zweig deve morrer (editado pela Almedina), já  publicado também em Portugal e na Itália. 

Fez a sua montagem em duas partes, com epígrafes de versos de Camões. A primeira corresponde a uma espécie de memórias póstumas de SZ (texto metalinguístico interno premonitório da morte futura), e, a segunda, diz respeito à construção tipológica dos assassinos nazistas e dos investigadores policiais, no curso do enredo. Montagem equilibrada que resultou numa obra instigante, de tal arte a precipitar os apontamentos seguintes, a título de amostragem (apertada crítica) para estimular a leitura de quem ainda não o leu.

    De início, convém assinalar que são percebidas as características de um roman à clef às avessas, da mesma sorte à rebours, porque determinados personagens reais (SZ e Lotte) não surgem na trama sob nomes fictícios, mas comparecem com os próprios, expressamente, em termos de analepses embutidas para, no plano das memórias recuperadas, reconstruindo o passado, se contraporem à fabulação tendente a justificar o duplo assassinato por esbirros nazistas, através da intervenção do autor da obra idiossincrática nos sentidos da estrutura e da especificidade.

Todavia, não se comporta como antirromance e, muito menos, à maneira do nouveau roman tão a gosto de Joyce, Proust, Robbe-Grillet ou Butor, a partir do esgotamento da forma narrativa, apesar da inovação pertinente às misturadas técnicas narrativas da composição, mediante o jogo estrutural, contrastando “autobiografias” atemporais recriadas (à margem, aqui, da tendência ao bovarismo) com episódios temporais criados − os do grupo dos assassinos e dos investigadores − na linha de uma grande reportagem, cujos desdobramentos lembram, às vezes, Gabriel Garcia Marques na Crônica de uma morte anunciada, não obstante o estilo de feição mais realista. 

    O realismo de DS, é de bom aviso sublinhar, não se compadece com o típico verismo, em especial o de sotaque francês (do tipo Zola ou Taine), ainda que transpareça, sem caráter panfletário, o viés documental em sua ficção na defesa do escritor vencido pela ideologia marcante na época de perseguido judeu hostilizado.

    Parece-me que, no fundo, se aproxima mais do roman à these com ecos de romance policial atípico. E tese sequer implícita. Muito pelo contrário. É explícita até no título, e forrada com cerrados argumentos para demonstrar que não houve suicídio, mas crimes adredemente arquitetados.

    Como se está diante de uma verdadeira tragédia, não se pode esquecer que o suicídio pode ser visto como catarse (de origem aristotélica), já que SZ era escritor (poeta, romancista, dramaturgo) e tinha, sem dúvida, plena noção do valor da ética da Arte. A morte, para um narcisista de sua estirpe, seria uma espécie de sublimação (Freud, seu amigo e confidente, explica), decorrente de seus conhecidos e desconhecidos conflitos. 

   Habilidoso, DS soube trabalhar muito bem o conceito do clímax por ter sabido, com coerência, controlar a intensidade maior (a partir da gradual e ascendente sequência dos fatos) dos acontecimentos até o momento em que o drama final se consuma, utilizando-se do sintagma  mise en abyme (perspectiva em abismo), procedimento estético antigo não desprezado (técnica estrutural, melhor dito) para encaixar história dentro da história (a dos duplos crimes ou duplos suicídios) ao abordar as tensões  entre os personagens, sem olvidar as dos problemáticos cônjuges até o ponto certo (dénouement) do funesto desfecho.

    Há encadeamento de imagens e alusões, inerentes à conotação, que, no livro, dá às palavras multívocos sentidos, entrelaçando-os, mas sempre adequados ao tecido do registro fático, inclusive com repercussão extratextual, afeiçoada aos vários focos narrativos (pontos de vista) concomitantes.

    Evidencia-se, ainda, a empatia recíproca nos diálogos travados, objetivos ou nuançados, mas no limite permitido, posto que, vez ou outra, pode restar a impressão de exagero de erudição (musical, literária, histórica etc). Mera impressão porque é contida, ao valer-se da intertextualidade, mormente em relação aos apontados assassinos, justificada a cultura geral dessa gente ligada ao círculo fechado dos adoradores do chanceler ditador.

   Deve ser enfatizado, nesta altura, que DS contextualizou os personagens (reais e imaginários) com o espírito da época (zeitgeist), contemplando a atmosfera do período em que os fatos ocorreram (rumo aos estertores da Segunda Guerra Mundial), ou seja, dentro da então perspectiva histórica e sociológica.

     Demais disso, presentes está a flashforward (interrupção de uma sequência narrativa na linha do tempo), localizada (sem esforço exegético) nas falas de SZ que antecipam a sua morte (o acontecimento fundamental do discurso literário) sabida e consabida, quase um diálogo interior (fluxo de consciência).

    Se porventura não ocorreram os suicídios, mas crimes, sob a apurada óptica do autor, estar-se-á em face de um erro também trágico (a hamartia da tragédia clássica), podendo SZ ser batizado herói por tudo quanto fez como pessoa e escritor (prolífico biógrafo e autor de Amok, Coração Inquieto, 24 horas na vida de uma mulher, entre tantos livros consagrados).

   No entanto, se o caso é realmente de suicídio, o que se põe é a hybris, falha grave, tendo SZ agido com orgulho e revolta de injustiçado, autoconfiança superlativa que estaria cumprindo os desígnios dos deuses, o seu grande destino de punir o mundo por não tê-lo compreendido e amado como merece.

    A envolvente obra de DS,  lavoro bene fato, em torno de um certo mistério, a rigor exige vertical ensaio, mas, por ora, limito-me a esta resenha reveladora de suas excepcionais qualidades literárias. Qualidades, ressalto, fruto do processo criador de quem soube manejar com habilidade técnica e sutileza (pontuada pela ironia) o núcleo narrativo do romance, emprestando-lhe o encaixe da pulsação precisa dos movimentos (efeito, tom, extensão, função, andamento, ritmo), no tempo adequado, bem explorada a carpintaria da matéria, inclusive no âmbito do cenário.

    E tudo realizado para compor à perfeição os perfis físicos e psicológicos de personagens complexos, notadamente SZ, que, entre nós, viveu na solidão (“esplêndido isolamento”, segundo freudiana observação), desencanto e nostalgia de seu mundo perdido até que, de repente, não mais que de repente, suicidou-se (?), acoplado à mulher na mesma cama, ou foi assassinado (?), deixando à posteridade um ponto de interrogação ainda à espera de resposta definitiva.

(*) Poeta, ficcionista, crítico literário e de artes visuais.

Foto: Reprodução

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